domingo, março 14, 2004

Histórias de amor (2 - final)
Estou um pouco atrasada para publicar aqui minha homenagem aos 450 anos de São Paulo. A história começa no post anterior. Ia fazer em capítulos, mas mudei de idéia e resolvi mandar de uma vez só o resto da história. Essa história participou de um concurso e não ganhou nada... a história ganhadora comparava a nossa São Paulo à Gotham City do Batman... - nada mais americanóide! ...enfim, vai saber. Vai ver eu não estava bem sintonizada às expectativas da comissão julgadora. Fazer o quê, se sou uma romântica incurável?
A vida da gente pode ser resumida em um encadeamento de histórias de amor. Não é lindo, tudo isso?

Irene e Norberto
Na capital paulista, Norberto, o rei da alegria entre os amigos, com seu inseparável violão, conhece Irene - mocinha muito franzina e bonitinha - que passa a ser sua inspiração para lindas e românticas cartas de amor. O casamento é logo acertado, como era comum naquela época, e o casal vai morar em uma casinha térrea, bem simples, com jardim na frente e quintal nos fundos, que só tem sala, quarto, cozinha e banheiro do lado de fora, na rua Gandavo, na Vila Clementino.
Nasce Neide, e dois anos mais tarde, Ivone. Naquela época, a Medicina ainda não conhecia nem mesmo a cura para vermes, mal que abrevia a vida de Neide, aos dois aninhos de vida. Esse fato traz a primeira grande tristeza ao casal. Pouco depois, nasce Leônidas, nome escolhido para homenagear famoso jogador de futebol da época. A vida simples prossegue sem maiores sobressaltos. Norberto trabalha como instrutor de auto-escola. Irene cuida dos afazeres domésticos com dedicação e capricho.

Ivone e José Leonardo
Por outra dessas coincidências da vida, José Leonardo e Ivone encontram-se na Walita, onde os dois trabalham. Aquela mocinha simpática, com suas covinhas que aparecem quando ela sorri, vaidosa - não vai nem até a esquina sem passar seu batonzinho - chama a atenção de José Leonardo. O jovem alto, muito magro, com jeito de intelectual e aqueles bigodes que o fazem parecer mais velho do que é, também conquista o coração de Ivone.
O namoro logo leva ao casamento. Fica registrado para sempre na foto oficial o vestido branco, com uma longa cauda - como se usava nos anos cinqüenta - bem como o imenso buquê de flor de laranjeira. Os sogros vão morar com o casal em uma casa confortável, com três dormitórios, sala, cozinha e banheiro, no conjunto habitacional construído pelo Instituto da Previdência, na região oeste de São Paulo.
Um ano mais tarde, nasce Silvia Regina, no hospital e maternidade São Paulo. O avô Mário manda fazer uma placa para instalar na frente da casa, com os dizeres: “Vivenda Silvia Regina”. As meninas da perua adoravam perguntar para Silvia o que queria dizer “vivenda”, por que havia uma placa com o seu nome da porta da casa, perguntas sempre que a deixavam bem embaraçada.
P.S.: os descaminhos dessa vida levaram esse casal a novas histórias de amor, mas aí são outros casos, outros personagens... qualquer dia eu conto!

Florência e Vilhelm
O bairro de Pinheiros, também na zona oeste de São Paulo, é o cenário da história de amor de Vilhelm e Florência. Jóquei, nascido na Romênia, Vilhelm encanta-se com a beleza de Florência, filha de portugueses. Vaidosa, sempre com uma flor nos cabelos, exímia cozinheira - ganhou até um concurso de culinária - ela começa a ser procurada por ele. Com muita insistência, além de presentes bonitos e caros, principalmente jóias de ouro que ela tanto adora - o estrangeiro consegue conquistá-la.
Muito católica, Florência dá à primeira filha o nome da padroeira do Brasil. Demora nove anos até ter o segundo filho, o tão desejado menino. Nascido no hospital e maternidade Santa Helena, na Liberdade, Guilherme faz o maior sucesso. Não é todo dia que nasce um bebê com 5 quilos!

Silvia e Guilherme
O lugar: colégio Equipe da rua Martiniano de Carvalho. O ano: 1975. Silvia, aos 16 anos, está no terceiro colegial, no colégio Stella Maris, na rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, onde estuda desde o primeiro ano primário. Ela e suas quatro melhores amigas resolvem fazer cursinho à tarde e escolhem o Equipe, onde Guilherme faz supletivo.
Seus cachos dourados, seus olhos claros, que lembram os do vovô Mário, seu jeitão alegre e amigo de todo mundo seduzem a mocinha tímida e ele se torna seu primeiro namorado.
Em agosto daquele ano ficam noivos. O plano era uma viagem ao Peru, de trem, nas férias. E o noivado era uma forma de ajudar a convencer os pais. A madrinha da Silvia, Alayde, doceira de mão cheia, faz um delicado bolo em forma de coração para marcar a data.
Apesar da viagem não ter dado certo, o noivado dura cinco anos, até que em 1980, os dois vão morar juntos em um sobradinho geminado na Vila Brasília, na rua João Moura, de novo, Pinheiros.

São Paulo, 450 anos
Cenário de histórias de amor, entrelaçadas umas nas outras. É assim que vejo São Paulo. A cidade, que pode aparentar ser fria, a chamada “Selva de Pedra”, não é assim para quem conhece suas entranhas, como eu.
A cidade representou o sonho de uma vida melhor para meu avô Mário; o cenário das vitórias no Jóquei do avô dos meus filhos, Vilhelm; o palco do amor dos meus pais e lugar mágico onde meus próprios sonhos se tornaram realidade.
Em 1983, nasce o Tomás, em plena avenida Paulista. Em 1992, é a vez da Marjorie chegar ao nosso mundo e à nossa cidade. Mudamos de Pinheiros para o Butantã, trabalho no Itaim. Vivo e respiro todos os dias nessa cidade. Reclamo do trânsito, mas continuo sonhando. Trabalho mais do que me divirto, como todo paulistano. Mas, sobretudo, amo essa velha senhora de 450 anos. Amo São Paulo. Amo minha vida.

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