sexta-feira, agosto 29, 2008

Um pouco de ficção

Abre parênteses: obrigada pelos votos, a votação continua, mas vou colocar uma história de amor diferente aqui hoje. Fecha parênteses.

Uma família muito especial

Somos uma família de ratos. Vivemos no esgoto de São Paulo. Aqui tem muito alimento e é um lugar muito bom para se viver. Meu avô sempre diz que no tempo dele era diferente, os perigos eram maiores. Hoje em dia, vivemos no sossego do esgoto e ninguém é capaz de nos tirar daqui.

Nós, ratos, somos animais muito legais, não gostamos de incomodar o Homem. Nós nos escondemos porque cada vez que um de nós aparece é um deus-nos-acuda. O Homem sai correndo, a Mulher sobre em cima de uma cadeira e fica gritando. É sempre assim. Nós não gostamos de confusão. Queremos ficar no nosso canto, com os nossos restos de comida, não amolamos ninguém.

Nós só temos muito medo mesmo é de uma coisa chamada ... Ratoeira. Meu avô sempre diz que havia muitas Ratoeiras no tempo dele. Agora, há poucas. Eu mesmo, que ainda sou jovem, nunca vi uma em toda a minha vida. A minha avó não deixa a gente falar essa palavra. Ela diz que não pode, que atrai. Sei lá o que isso quer dizer. Ela diz assim: “aquela palavra que começa com erre...” cobrindo a boca pra ninguém enxergar e nem ouvir direito.

Na semana que vem vai ser o casamento da minha irmã. Ela demorou pra escolher o noivo. Ficava com um, depois com outro. Mas agora ela conheceu o rato que vai faze-la feliz, diz ela. Eu não sei, porque ainda sou muito novo pra saber sobre essas coisas de casamento. Só sei que ele parece ser um cara legal. Um dia me trouxe um pedaço de queijo de presente. Provolone, que eu adoro!!

No casamento da minha irmã a gente vai fazer uma grande festa e convidar todos os ratos do esgoto! Vai ter até DJ e a gente vai dançar a noite toda. Quer dizer, eu não, porque sou novo e tenho sono cedo. Mas vou ficar na festa o máximo que eu conseguir. Meu pai disse que eu posso porque é o casamento da minha irmã e nem todo dia é casamento da irmã da gente. Por isso vou poder ficar acordado até tarde. Vai ser o maior legal.

De comida, vai ter queijo de tudo quanto é jeito! Queijo branco, queijo coalho, queijo amarelo, queijo gorgonzola, queijo camembert, queijo mussarella, queijo provolone, queijo parmesão, queijo gouda, queijo prato, queijo garfo.... Existe queijo garfo? Não sei, mas acho que deve existir, sim. Se existe, vai ter no casamento da minha irmã. O noivo dela é muito rico.

A minha mãe tá histérica. Parece que é ela que vai casar. Ela disse que tem que cuidar de todos os preparativos, que vai vir até o prefeito e que tudo precisa estar impecável. Que nada pode dar errado, que o bolo de queijo tem que ser o mais bonito que já se viu no esgoto, que minha irmã não pode isso, não pode aquilo, que tem que jogar o buquê assim, assado... Ela fala tanto que eu fico até tonto de ouvir e vou fazer outra coisa. Até saio de perto quando ela fica assim atacada.

Minha irmã me contou que até os fotógrafos da revista Ratas vão vir pra fotografar o casamento dela. Depois do casamento, ela contou que vai ter lua-de-queijo. É assim: eles viajam pra um lugar bem legal, ficam lá uns dias e depois voltam. Ela me disse que eles vão viajar até o túnel do metrô, na Estação Paraíso. Com esse nome, deve ser bom, né? Diz que lá tem um monte de coisas gostosas pra comer e que tem passeio “com emoção” e “sem emoção” pra fazer. Se fosse eu, ia querer “com emoção”! Mas a minha irmã é medrosa e aposto que ela vai pedir pra ser “sem emoção”! Depois eles vão pra Estação Liberdade. Também deve ser um lugar legal. Mas ela falou que os ratos de lá falam outra língua, que não dá pra gente conversar assim normal com eles. Ela me disse que eles falam ratonês. Acho que é isso mesmo.

Depois, eles vão pra Estação Brigadeiro. Eu adoro brigadeiro! Sempre que tem festa de criança na casa que fica aqui em cima de onde eu moro, a gente vai lá. Porque alguma Criança sempre derruba um brigadeiro e a gente come. A gente vai de noite, depois que todos foram dormir. Dá um frio na barriga, porque eu tenho medo que alguém me veja e me cace.

Meu avô me falou que a gente precisa ter muito cuidado também com os Gatos. Que eles são do mal e que atacam a gente. Que não deixam sobrar nem um pedacinho da gente pra contar história. Eu, hein? Nunca vi um Gato. Mas meu avô me contou como eles são: são peludos, têm um rabo comprido e correm super rápido pra pegar a gente...

Mas isso não interessa agora. Quero contar mais da viagem de lua-de-queijo da minha irmã. Ela disse que vai trazer uma lembrancinha pra mim.

Olha, eu não sei se a sua família é assim tão feliz quanto a minha, Espero que seja. Aqui no esgoto a gente se diverte muito.

Agora eu tenho que ir embora, que a minha mãe tá me chamando. Tá na hora de dormir. E do jeito que ela anda nervosa, é melhor não contrariar. Você quer ir no casamento da minha irmã? Me dá seu endereço que eu vou pedir pro meu pai botar um convite pra você no corrateio, tá?

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