Querida Rádio Eldorado,
Tudo bem com você? Nem tanto, né? Eu já tô sabendo. Suas ondas estão prestes a se calar. Fiquei sabendo ontem (23), quando chegou a notícia no grupo de WhatsApp da faculdade: no dia 14 de maio, você será calada. Fiquei triste.
Classificada como “terrível” no post que foi compartilhado ali, a notícia me nocauteou também... Como assim? Até hoje eu te ouço. Não todos os dias como antes, mas de vez em quando, mesmo morando há quase quatro anos aqui em Portugal.
Você, minha parceira de trajetos casa-trabalho, trabalho-casa, durante tantos anos... As músicas ótimas que você transmitia e eu ouvia bem alto e dançava, mesmo ao volante (deve ser proibido, mas sei lá!). Quando eu estava animada, dançava e cantava alto, sozinha no carro. Ou melhor, sozinha, não. Com você, “a rádio dos melhores ouvintes”.
Eu até me sentia especial. Os seus locutores, com aquelas vozes perfeitas e aveludadas, eu já conhecia de cor e salteado. Os programas sobre música black, o programa Boca da Noite, O Som a Pino, da Roberta Martinelli, ao meio dia em ponto... Tinha muito mais, mas sabe, a minha memória já não é tão boa como era antes.
Mas além dessa relação de ouvinte fiel, eu também tive uma experiência interessante com você, que eu quero te contar agora, para que não se perca para sempre. Certa vez, quando eu fazia assessoria de imprensa para a Traditional Jazz Band (pesquisei aqui e vi que o Jô Soares apresentou o programa de jazz Jam Session, entre 1988 e 1996), acompanhei-os na apresentação ao vivo deles nos seus estúdios ali no icônico edifício do jornal O Estado de S. Paulo, na Rua Major Quedinho.
O show foi animado, tinha até plateia, todo mundo se divertiu. Foi um clima de alto astral, embalado por aquele jazz delicioso que a banda tocava (e ainda toca até hoje).
E o setor de jornalismo era ali ao lado. Fui lá conversar, e acabei por conseguir uma oportunidade de trabalhar lá. Só que o meu horário de trabalho seria à noite, e meu filho ainda era pequeno naquela época. Na manhã seguinte, voltei lá e passei no teste. Me disseram para ir até o prédio central do Estadão, na Marginal Tietê, para preencher os papéis e começar a trabalhar lá.
Mas quando eu estava ali diante dos papéis, pensei melhor e desisti da vaga. Devolvi tudo, voltei para casa, me senti aliviada, e continuei a trabalhar como autônoma na assessoria de imprensa.
Como teria sido a minha vida se eu tivesse trabalhado lá? São aquelas encruzilhadas da vida, que definem o nosso futuro. Meu marido, o António, não acredita em livre arbítrio. Para ele, todas as coisas que acontecem na nossa vida fazem parte de uma cadeia de causa e consequência. Eu já estou quase que 100% convencida dessa teoria dele.
Hoje, o assunto do seu fechamento rendeu. O perfil do Instagram Infinito.etc validou a “dor” dos tantos ouvintes que ficarão sem você:
“Após quase 70 anos no ar, a “rádio dos melhores ouvintes” anunciou seu fechamento. (...) a quebra de um vínculo importante pode gerar vários dos sintomas (do luto) como tristeza, angústia, nostalgia, sensação de desajuste, de perda do mundo como era conhecido. Nada disso é exagero: é NATURAL.”
E diz mais: “rádio é cultura, é dia a dia, é rotina, (...) acompanha momentos de quem está do outro lado”.
Alguns entram em negação. O ouvinte Rodrigo, inconformado, criou uma petição na plataforma Change.org, que está com 255 assinaturas até agora (quase meia noite, do dia 24/4). Particularmente, não acredito nessas petições e duvido que tenham o “poder” de mudar alguma coisa.
No dia 15 de maio, será outra rádio que vai ocupar as suas ondas, querida Eldorado.
Você pode estar conformada com o seu fim anunciado e pensando assim: mas o que adianta “chorar” pelo fim de uma rádio, em tempos de IA? Sim, eu sei que não adianta nada. Só queria mesmo te mandar esse recado, o meu carinho, ainda mais depois que descobri que nós duas nascemos no mesmo ano: 1958. Então, quando o pessoal diz “quase 70 anos” sinto que também é de mim que estão a falar.
Um beijo, fique bem.
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