quinta-feira, julho 25, 2024

Dia do escritor e Dia Fora do Tempo


Escritor(a) é aquela pessoa que tem tanta intimidade com as palavras que não sente medo algum da página em branco.

Escritor(a) é aquele que encara a página em branco como o palco onde ele faz bailarem as suas palavras, escolhidas a dedo, para emocionar, denunciar e até mesmo curar.

Escritor(a) é aquele que escreve porque é inevitável.

Escritor(a) é quem possui uma varinha mágica (tanto no sentido que usamos no Brasil, quanto no sentido usado aqui em Portugal — ou seja, um mixer) para lidar com as palavras e as sentenças de um jeito próprio, como ninguém mais consegue repetir ou imitar.

Escritor(a) é quem tem a coragem de vomitar em público seus pensamentos e sentimentos por intermédio das palavras, arriscando-se a encontrar nesse público aqueles que se identifiquem com a sua expressão.

Portanto, amigas e amigos, escritores atuais e futuros, sintam-se à vontade com as palavras. Escrevam, escrevam e escrevam. A minha dica de hoje vai para um site muito bacana, que eu adoro, onde você pode escrever um e-mail para você mesmo, no futuro. Quando você menos esperar, lá estará o seu próprio e-mail na sua caixa de entrada, a relembrar as suas questões atuais, que no futuro terão outra relevância completamente diferente. A vida é dinâmica e o tempo tem as suas dobras. Aproveite o Dia dos Escritor e escreva para você mesmo. Você vai se surpreender e se emocionar.

Além disso, na cultura maia, hoje é o Dia Fora do Tempo. Para saber mais, entre neste link

sábado, julho 20, 2024

Façanha digna de post!

Ultimamente, não tenho vindo muito aqui ao blog, por vários motivos. Primeiro, tenho feito outras coisas da minha vida e tenho priorizado a vida offline. Sei lá onde a Inteligência Artificial vai nos levar, e um belo pedaço da minha vida já está exposto aqui. Então resolvi diminuir minha presença online. Segundo, ninguém lê. Ninguém está nem aí com o que eu tenho a dizer (escrever). E estão certos. Eu me recolho à minha "insignificância", rsrs 

Mas preciso deixar registrada aqui uma das maiores façanhas que já vi com as minhas retinas cansadas, afinal, são 66 anos de vida até agora. Ontem, o meu filho me mandou esse vídeo no WhatsApp e eu precisei ver várias vezes. 

-- Cadê as rodinhas? 

Não, não tinha rodinhas. Ela estava andando de bicicleta com duas rodas, com a maior desenvoltura desse mundo. Outro filme passou na minha cabeça. Lembrei de quando o Tom aprendeu a andar de bicicleta, eu queria ir correndo atrás dele para o segurar, caso desequilibrasse. E lá estava a Olívia, do alto dos seus 4 anos de idade, no meio da maior movimentação de bicicletas, dando voltas e voltas na pista, na maior, fazendo curvas e tudo o mais! De primeira! Meu queixo caiu e está caído até agora. Nunca vi nada parecido em toda a minha vida. Essa minha netinha é mesmo um fenômeno. Só pode ser. Vai ver ela é daquela geração "cristal" ou algo parecido. 

Parabéns, querida Oli! Estou orgulhosíssima da sua coragem e habilidade. Vocês sabem, eu pertenço a dinastia das avós corujas, é claro, Aliás, como todas as avós, eu imagino. Espero que dê para ver no vídeo, que não me deixa mentir (se bem que tudo hoje pode ser fake, mas este eu garanto que não é!)  






segunda-feira, julho 01, 2024

Cartinha para o céu


Querida amiga Vilma, 

Eu sei muito bem que existem os médiuns, e tal. Inclusive já fui médium no passado. Mas o que eu queria mesmo era um jeito de fazer um telefonema para o Céu para dar os parabéns hoje para a minha querida amiga e comadre Vilma... Que saudades! Ah, Vilma, querida, que falta você me faz. Quanta falta eu sinto das nossas conversas, das suas festinhas, dos seus telefonemas (você ligava muito mais pra mim do que eu pra você, mas nunca me cobrava nada e perdoava a minha atitude, sem que eu precisasse pedir perdão). Que falta faz a sua presença aqui neste nosso mundo tão mesquinho, tão maluco, tão conectado e ao mesmo tempo tão desconectado do que verdadeiramente importa. 

Como você está, minha amiga querida? Como é a vida aí do outro lado? Ah, eu queria tanto que você pudesse falar comigo, responder minhas perguntas, que são tantas... 

Imagino que você esteja acompanhando os progressos da Mariana, da Marília e do André, e agora também das suas netinhas tão lindas... Ah, como elas gostariam de ter por perto essa vovó amorosa que você seria para elas... Disso eu tenho a certeza. 

Imagino que você tenha reencontrado toda a sua família aí pelo Céu, e que você dê um jeito de fazer o camarão na moranga, um bolo diferente, ou que invente qualquer pretexto para reunir o pessoal em volta da mesa. Ou da churrasqueira! Mas sabe de uma coisa? Não como mais carne. Ainda como peixe de vez em quando. Mas nada de carne. Nem o António, meu marido. Queria tanto que você o conhecesse! Ele é um ser humano muito especial. Tão cheio de qualidades e de virtudes... Parecido com você. Ama os animais, é atencioso com as pessoas, até mesmo com as desconhecidas, que, em pouco tempo, estão a lhe fazer confidências, a lhe contar toda a vida. Ele valoriza as coisas realmente importantes, sabe? Todos os dias, brindamos com cafezinho ao amor, à paz e à saúde. 

Ah, como eu me lembro de como você gostava do seu café matinal... Antes de tudo, um café preto. Depois, chamava a gente para caminhar nas redondezas da chácara. E a gente ia, feliz só por estar na sua companhia. 

Imagino que você continue a fazer belos arranjos com as flores magníficas que só se encontram aí no Céu. Imagino que você também sinta saudades da gente aqui embaixo. Será que seu ipê está bonito lá na casa da Mônica? Nunca mais falei com ela. Imagino que você sinta falta das reuniões do Comadrio, mas olha... parece que elas acabaram. Sem você não tinha mais nenhuma graça. 

Não faço a mínima ideia se você vai ler a minha cartinha. Espero que sim! Você costumava gostar das minhas cartinhas. Eu sei que deixei de te dar parabéns durante vários anos. Mas nunca me esqueci do seu aniversário. E não foi preciso nenhuma inteligência artificial me recordar dessa data no dia de hoje. Este ano, parece que você está a me fazer muito mais falta do que nos anos anteriores. Passei a diferenciar melhor uma amizade verdadeira das superficiais e a sua era das boas amizades, das verdadeiras, você era uma amiga com quem eu sempre podia contar, de verdade. 

Tenho pouqquíssimas fotos com você. Naquela época a gente se preocupava mais em viver o momento do que fotografar. Estávamos certas... E as poucas fotos que eu tenho estão justamente aqui no blog. Então, vou usar uma das repetidas. 

E eu não sei que tipo de desejo posso ter para você aí no outro plano... Mas desejo amor, paz, sabedoria, carinho, amizade, todas essas "coisas" (que não são "coisas") mais valiosas que a gente só aprende a dar valor mesmo quando estamos distantes da materialidade. 

Vilma, amiga querida, te envio minhas vibrações de carinho e de amizade eterna. Não tive irmã nesta vida, mas te considerei uma irmã de coração. "Tomare" (era assim que você falava e eu achava uma graça!) que você receba a minha cartinha e o meu abraço bem apertado. Se é que existe encontro astral, me chama pra gente conversar. 

Beijos da sua comadre,

Silvia 


sábado, maio 18, 2024

Do Ho Suh


Este é o nome de um artista plástico coreano, que me emocionou às lágrimas, quando vi, por acaso, uma exposição dele em Chicago, já faz muito tempo. 

Toda vez que quero lembrar do nome dele, preciso fazer uma busca no Google, porque não consegui decorar. Por isso resolvi fazer este post, para registrar o nome dele e tentar nunca mais me esquecer. 

Amei a exposição dele - inesquecível. Entrei só para ver, por curiosidade. E saí a enxugar as lágrimas de emoção. 

O tema dele é o LAR, o lugar onde vivemos. Ele reconstruiu os seus endereços em maquetes em tamanho real com tecidos parecidos com véus coloridos. 

Nesse vídeo, ele explica um pouco do trabalho dele. Não é a mesma coisa que ver ao vivo uma exposição, se deixar levar. Havia uma sala com projeções no chão, no teto e nas 3 paredes (menos na parede por onde se entrava no espaço) - aquilo é que foi uma experiência envolvente, imersiva.  

Bom, não dá pra explicar muito. Mas me emocionei porque no fim ele propunha que as pessoas desenhassem o que é o lar para elas. E para você: o que é o lar para você?? Quer desenhar?? 

quarta-feira, abril 03, 2024

Reflexões em drops


Quando eu era pequena existia o drops Dulcora (esse da foto). Eram balinhas coloridas, em formato quadrado, embrulhadas uma a uma. Como não consegui desenvolver nenhum texto digno de ser publicado aqui no blog, publico esses três drops aqui:

A neve

Para quem, como eu, nasceu em um país tropical, a neve costuma exercer um fascínio difícil de explicar. Para mim, as paisagens branquinhas têm um sex appeal que nenhuma outra paisagem consegue superar. Ver a neve caindo, então, tem o poder de me fazer voltar a ser criança. Eu, uma mulher do alto dos meus 65 anos, dou gritinhos de alegria quando vejo a neve cair. É algo excepcionalmente fantástico!

O sofrimento

Eu acho que o sofrimento é inevitável. A questão é como as pessoas lidam com esse sofrimento... Se a gente não "abraçar" esse sofrimento, fica mais difícil superá-lo. A gente tem que olhar o sofrimento de frente, temos que ter coragem de encará-lo. Só assim é possível ultrapassá-lo. E é nisso que as "redes sociais" nos atrapalham, por vezes, nos fazendo acreditar que "todos" têm uma vida perfeita. Não têm. Simples assim!

O bem

Eu me pergunto, às vezes, por que fazer o bem, se a gente quase nunca ganha nada com isso. Pesquisei no Google e encontrei o seguinte:
“No cérebro, gestos de bondade liberam substâncias químicas poderosas, como a oxitocina, serotonina e dopamina, que melhoram nosso humor, aumentam os estímulos de recompensa e reduzem o estresse. A compaixão desacelera os batimentos cardíacos e reduz problemas arteriais coronários. A oxitocina também está ligada a relações sociais, de modo que, ao ser liberada, nossos vínculos são fortalecidos.”

Bom, parece que a Ciência está trabalhando bem, afinal.

Também achei o seguinte: “Fazer o bem tem também relação próxima com o sentimento de empatia, que é a capacidade do ser humano de se colocar no lugar do outro, partilhar e compreender os seus estados emocionais”.

Em tempos de guerra, eu acredito que a única saída possível é procurar fazer o bem. É isso...


sexta-feira, janeiro 19, 2024

Os ladrões do tempo

Arte @António Rodrigues

A VIDA é feita de momentos, instantes, insights, entre 1000 outras coisas. 

O TEMPO é uma ilusão, uma necessidade nossa, uma prisão. 

Nosso grande desafio, portanto, é gerir a VIDA ao longo do TEMPO que o Mistério (Deus) nos concede aqui nesta nossa NAVE, que é o Planeta Terra, em constante (e acelerado) movimento no Universo. Giramos ao redor do Sol a uma velocidade média de 29,9 quilômetros por segundo. Nossa nave querida...

E você? Como está a gerir seu TEMPO de VIDA por aqui? Quanto tempo dedica a você? Aos outros? À internet? Ao trabalho? Ao lazer? Á família? Aos amigos? Á saúde? À espiritualidade? Aos afazeres do dia a dia? Aos planejamentos? Á leitura? À alimentação? Às atividades ao ar livre? Às compras? Aos sonhos? 

Sim.. essa é apenas uma pequena listinha de tarefas e todos nós, sem exceção, somos chamados a lidar com tudo isso que escrevi e muito mais, ao longo do dia, da semana, dos meses e dos anos. 

Como você está a equilibrar os pratos dessa balança na sua vida? Em geral, a gente se perde ao tentar dar conta das urgências e das prioridades, deixando de lado as coisas importantes. 

Hoje vi um pequeno vídeo da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, citando o crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin, sobre a diferença que ele traça entre a vivência (viver o dia a dia) da experiência (quando a gente consegue analisar as vivências e sentimos vontade de escrever sobre elas), 

O que acontece é que quando estamos mergulhados nas nossas vivências do dia a dia, não abrimos espaço para as experiências. 

Quando aceitamos todos os convites (coisa que eu fazia quando morava em São Paulo) talvez por "medo" de recusarmos e a pessoa que nos convidou deixar de gostar da gente, e não por vontade real de fazer aquilo, estamos a ceder aos "ladrões do tempo". 

Mas quem são esses ladrões do tempo? Além das atividades que não nos apetece fazer, nem preciso dizer aqui que o telemóvel / celular e as redes sociais que nos seguem por todo lado são os principais ladrões do nosso tempo, a quem entregamos os nossos preciosos minutos e horas por livre e espontânea vontade. Ou talvez por inércia. 

YouTube, Facebook, Instagram, WhatsApp, Netflix, TikTok, Threads, Pinterest, apps diversos... Nossa vida virtual é rica em siglas e nomes de empresas que sabem muito mais a nosso respeito do que nós mesmos. 

O autoconhecimento fica relegado a 125o. plano. E seguimos como robôs, diante de telinhas e telonas (que aqui se chamam ecrãs), nos encaminhando para precipícios prontos a engolir as nossas almas. 

O que você faz para lidar com esses "ladrões do tempo"?  Ou você entrega alegremente seu precioso tempo a eles, em busca de likes e de audiência, deixando para trás a sua vida REAL, ou seja, a VIDA OFFLINE? 

Você faz o que ama com que frequência? Aliás, o que você ama fazer (offline, é claro)? Será que você é daquelas pessoas que adia aquilo que ama, distraída (o) que está correndo atrás desses "ladrões do tempo"?? 

Reflita por um instante e responda para você mesma (o): quem está a levar a melhor nessa guerra entre a VIDA e o TEMPO? 

Eu estava a aprender italiano num desses aplicativos fofos, cheio de personagens fofos, achando que estava fazendo uma grande coisa. Até que eu cheguei em primeiro lugar na divisão mais alta da hierarquia da competição (sim, no fundo é uma competição) que lá existe, com pessoas que não somente não sei quem são, como nem mesmo sei se elas existem de verdade. Provavelmente não são pessoas reais. Eles inventaram baús de recompensas, que devem ser abertos em horários específicos do dia, de manhã ou à noite, e isso começou a exercer uma pressão em mim, CDF que sempre fui. 

Tanto que perdia horas ali, achando que estava simplesmente estudando italiano, quando, no fundo, no fundo, eu estava a dar audiência para anúncios e lutando para não ser "rebaixada" de divisão! O curso é um labirinto sem fim, é repetitivo, avança muito devagar, para que os "alunos" fiquem presos e passem cada vez mais TEMPO ali. Quando percebi quão maquiavélico é aquilo, deletei imediatamente o app do meu celular e sobrou TEMPO para escrever este texto que também não é nenhuma maravilha, mas pelo menos pode ser que ajude mais alguém a abrir os olhos. Embora este texto esteja justamente na internet, plataforma onde, teoricamente, "todos" teriam o potencial de acessá-lo, nesse meu velho blog. 

Mas sabemos de antemão que os tais algoritmos cuidarão bem para que ele fique bem escondidinho atrás de um URL obscuro, ainda mais porque citei os nomes das poderosas empresas que tudo sabem e tudo veem.  

Mesmo assim, vou compartilhar este link no Facebook, para avisar minha meia dúzia de leitores que tem texto novo por aqui. Caso não faça isso, é capaz de não aparecer viv'alma por aqui, ou como se diz aqui em Portugal, capaz de ninguém pôr aqui os pés. 

Hoje, todo mundo pode criar conteúdo, o que parece uma coisa muito boa. Mas quando a gente observa de perto, enxerga que a internet virou um repositório de superficialidades sem fim. Tem coisinhas fofas e interessantes, como o vídeo da Maria Rita Kehl, que citei. Mas tem uma imensidão de vídeos bobos, desnecessários, coisas idiotas e sem sentido. 

Esse conteúdo infinito só é mesmo capaz de criar uma coisa muito perniciosa: a famosa ansiedade. 

Por isso, minha amiga, meu amigo, não caia na nessa rede perversa. Crie a sua estratégia de lidar com os "ladrões do tempo". Faça as suas escolhas de forma consciente. Descubra o que te faz se sentir livre. Use seu tempo para criar as suas experiências e não fique nessa coisa rasteira das meras vivências cotidianas. Torne-se artista, crie suas próprias obras de arte. Acredite em si mesma (o). Use a tecnologia a seu favor, com parcimônia e responsabilidade, se deseja ser dona (o) da sua liberdade, do seu tempo, da sua vida. 

Pense nisso e deixe seu comentário, mas lembre-se de me dizer o seu nome, porque eu permito comentários anônimos, para facilitar, mas está cheio de gente que comenta e não me diz quem é. 

Paz, amor e saúde e até o próximo post!

domingo, janeiro 07, 2024

Inverno amarelinho

foto @António Rodrigues

Aqui em Portugal, na zona onde vivo com o meu marido, no inverno a paisagem é dominada por uma florzinha amarela, a azedinha, que conheci quando morei no Algarve. Ainda não sei se ela cobre todo o território português ou não. Disseram que este ano ela floresceu mais cedo. Como este é ainda apenas o meu segundo inverno europeu, não sei bem qual é a época "certa" dessas florzinhas surgirem. 

Mas aqui agora é assim: em uma simples ida ao supermercado, que fica em Óbidos, a gente se depara com campos cobertos pela cor amarela, que, a propósito, é a minha cor favorita, desde quando eu nem sabia pronunciar a palavra direito, segundo me contaram. 

Então, uma pessoa que ama o amarelo é colocada pelo Destino a viver em um lugar (sítio) onde o amarelo pontua o verde da paisagem de alegria. Para mim, parece cenário de filme ou de contos de fadas. Parece que a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau vão aparecer logo ali, ao dobrar a estrada. 

O céu poderá estar azul ou cinzento, já que o inverno também é época de chuvas por aqui. O casamento da chuva e do sol geralmente resulta em um estupendo arco-íris no céu. E as casinhas, todas fofas, parecendo aquelas que as crianças costumam desenhar, sabe? Uma porta ao meio, uma janela de cada lado e o telhado em duas águas. Poucas têm mansarda (aquela janelinha do sótão, que eu amo), mas algumas têm. 

Claro que nem tudo são flores, mas uma boa parte é sim. A vida segue macia, suave, sem ansiedades, sem trânsito, sem poluição, sem violência. E eu apenas agradeço ao Mistério, ao Divino, a Deus, aos anjos e à Vida, com V maiúsculo. 

     

sábado, dezembro 02, 2023

Você conhece as azevias?

Uma aldeia portuguesa

Elas podem ser feitas com recheio de batata doce, grão (que é como os portugueses chamam o grão de bico) ou de abóbora gila (uma espécie de abóbora que só tem aqui). Elas parecem risoles (que aqui são chamados de rissóis), mas são doces. E são típicas do Natal. Assim como a deliciosa broa castelar.  

Hoje provei a azevia de grão (amei!) e um doce chamado Reguengo Grande no cafetaria Natinhas do Céu, que fica justamente em... Reguengo Grande, aqui do lado de casa. Fiquei feliz porque a ideia de ir nessa cafetaria foi minha e é um encanto! Está toda enfeitada para o Natal com árvores feitas de madeira, muito singelas. Deu sorte, porque até agora todos os lugares que eu havia conhecido por aqui me foram apresentados pelo meu amor, que mora aqui há 18 anos e ainda não tinha ido nesse local.

O doce que leva o nome da aldeia é feito com maçã reineta (típica daqui também) e amêndoas. É uma delícia, uma gostosura! Ele vem embrulhadinho em papel, um capricho.   

Descobri tanta coisa nova nesse meu primeiro ano aqui!! Sabe a fonte da juventude? Então... Aqui é como se eu tivesse voltado à infância, porque é uma profusão de tanta novidade... São palavras, doces, comidas, músicas, caminhos, reflexões... tudo novo. São emoções completamente novas na minha vida. Tudo isso faz com que eu me sinta mais VIVA do que nunca. 

Mas não pense você, leitor abstrato para quem eu escrevo aqui, que foi tudo um mar de rosas, porque mares de rosas não existem. A vida é feita de altos e baixos e os baixos fazem com que a gente valorize ainda mais os altos. 

Mas no dia de hoje, quando "descobri" essa nova cafetaria que se tornou imediatamente a minha favorita aqui da nossa região (fica a 10 minutos de casa), eu me senti tão feliz e realizada que tive de vir aqui escrever sobre as azevias, as descobertas, as pequenas aldeias e suas ruas estreitinhas e enviesadas, suas casinhas fofas, é tudo tão lindo, tão delicado, tão arrumadinho, tão ... 

"Minha" aldeia é assim também. Linda, fofa, cheia de casinhas lindas, uma mais linda do que a outra...

Eu canto no Coral das Caldas da Rainha e me sinto integrada e acolhida aqui. Cantamos ontem (dia 1/12/2023) e vou cantar de novo no dia 9/12/2023) o repertório de Natal no Parque Dom Carlos I, em Caldas da Rainha. 

Se eu fosse contar tudo de maravilhoso que tem acontecido por aqui... Ontem, por exemplo, depois da apresentação fomos a uma casa em Óbidos que resistiu ao terramoto (aqui é assim que se escreve) que destruiu muito do País em 1755. Nessa casa mora um casal de "cantadores" do coral e eles ofereceram um verdadeiro banquete recheado de mais delícias portuguesas, como o famoso caldo verde, e as farofias, que eu adoro, entre muitos outros quitutes igualmente deliciosos.  

E eu apenas agradeço infinitamente esse momento da minha vida.  

Quer a receita da azevia? Tem link aqui!

domingo, outubro 29, 2023

Parabéns e feliz aniversário ao meu querido blog!


Olá, querido leitor.

O Consulta Sentimental completa 20 anos hoje. Há 20 anos eu resolvi lançar meus serviços de consulta sentimental para o Universo. No começo, algumas pessoas totalmente desconhecidas apareciam aqui para se “consultar” e era engraçado. Nunca deixei ninguém sem resposta (pelo menos, não intencionalmente). Hoje também é a véspera do aniversário de um ano da minha nova vida aqui na aldeia, como já contei aqui no blog

Depois, o espaço foi sendo usado pelas minhas reflexões, reclamações, pelos meus textos que tinham que sair por algum lado. Toda pessoa que escreve gosta de ser lida. O António (meu amor - na foto antes de nos conhecermos) diz que é ego. Eu não acho. Acredito em “inspiração” e talvez aqueles nossos pensamentos desencontrados possam vir a ser úteis a alguém. Fora que o mero exercício de escrever tem todo esse poder curativo e de clarear as ideias e eu continuo aqui, a escrever, mesmo quando estou muito ocupada fazendo coisas mais importantes, faço uma pausa e venho aqui.

O que é mais importante? O que é viver? Para mim, tem a ver com o SER e não com o TER e cada vez mais tenho a certeza absoluta disso. Embora eu esteja na fase mais introspectiva da minha vida inteira, ainda sinto esse impulso, essa vontade incontrolável de escrever.

E hoje, 20 anos depois de quando publiquei a letra daquela música da Rita Lee que ainda adoro, Amor e sexo, eu não poderia deixar de vir aqui para celebrar esse aniversário incomum, improvável e completamente desimportante.

Mas por mais que eu ainda goste da música da saudosa Rita Lee, que foi cantar em outras paragens, eu tenho uma única coisa a declarar aqui no “meu” espaço: que amor e sexo, quando andam juntos, são do melhor que há. O ideal é tentar unir as duas coisas, porque aí sim funciona tudo às mil maravilhas, ignorando idade, menopausas, ruguinhas e gordurinhas a mais. Nada disso interessa.

Uma maneira de “comprovar” isso que eu digo é publicando aqui um trecho de poema Campo Aberto, escrito pelo mais lindo e talentoso poeta de todos os tempos, o meu marido, António Rodrigues, no livro A Fenda (2017).

... o que procuro no teu sexo

não é a rosa da sua substância,

as vibrações e o sal que temperam o fogo,

nem as naturezas que lá habitam

e cravam o seu esporão na carne.

............................................................................

Por fim, sempre por um fim

que é um princípio no infinito circular

o que anseio ao percorrer-te,

profundamente, o vazio pleno,

no centro do teu âmago,

é uma floração cósmica num campo amplo de ternura

que me tome como a um lobo, faminto e terminal,

no altar da natureza.

***

sábado, outubro 21, 2023

Sobre falar com as árvores, ou melhor, sobre saber ouvir as árvores, nossas irmãs


Em Nespereira, a conversar com um cedro do Líbano, plantado em 1646 (segundo a tradição)
Fotografia: @António Rodrigues
 

Sou filha única, portanto, não tenho seres humanos irmãos. Mas tenho as árvores como irmãs, e sempre que posso, abraço uma e tento “ouvir” o que ela tem a me dizer. Elas sempre me falam sobre contemplação, sobre observar e sobre o fluxo da vida em movimento, embora elas não se movimentem a não ser que o vento venha balançar seus galhos. Generosas, oferecem seus frutos e sua sombra, emprestam seu tronco para os musgos e seus galhos para os passarinhos fazerem seus ninhos. Mas elas são boas mesmo em purificar o ar que respiramos.

Ando na fase mais introspectiva de toda a minha vida, desde que me mudei há quase um ano para Portugal. Vim atrás do amor da minha vida. E tenho refletido muito sobre o Tempo, o Amor, a Vida e a Morte, as separações e uniões. Tudo isso que compõe a nossa vida, nosso dia a dia. Agora que estou na infância da velhice, como bem diz o meu amor, entendi que preciso ser mais seletiva do que nunca. E desde que comecei a me comunicar com as minhas irmãs árvores (lembrando que também somos irmãos e irmãs de tudo o que vem da Natureza, como pedras, flores e bichos), fiz algumas descobertas. Quando a gente encosta o ouvido no tronco de uma árvore, quase conseguimos escutar a seiva a correr do solo para as folhas mais altas. Ao refletirmos sobre a raiz das árvores, que em geral é equivalente à sua copa, conseguimos perceber sua energia e sua força.

De repente, eu me dei conta de que também nós, seres humanos, temos as nossas raízes simbólicas. Quando vim para Portugal, não pude trazer minhas raízes nas malas, que continham todos (ou quase todos) os meus pertences. Uma das minhas frases preferidas diz que “as melhores coisas da vida não são coisas”. Nós até compramos um avental, aqui perto, em Nazaré, com esses dizeres. Desconheço a autoria. Por isso, nunca me preocupei muito com as tais "coisas". 

Mas se deixei minhas raízes para trás, ganhei muito em troca: nunca me senti tão profundamente amada como sou hoje, e só isso compensa qualquer raiz que eu tenha deixado lá no Brasil. Não me arrependo de nada e se fosse escolher hoje, faria tudo absolutamente igual.

Só que hoje, ao ouvir o Arnaldo Antunes (com os Titãs) cantar “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, pensei no “meu” povo brasileiro, nas minhas raízes que gritam tão alto, de vez em quando, mesmo distantes fisicamente de mim. Meu povo... Eles invadem Portugal com uma imensa vontade de vencer na vida, ou simplesmente de conseguir viver uma vida um bocadinho melhor (como se diz aqui). Pensei nos imensos sacrifícios que alguns deles fazem para estar em um país europeu, do primeiro mundo. Pensei naqueles que vêm em fuga das péssimas condições que têm lá. Culpa de quem? De anos e anos de maus governos. Mas isso eu não quero discutir aqui.

Quero sim falar dos dramas humanos de tantos brasileiros e brasileiras que a gente vê por aqui em cada lugarzinho onde vamos. Eles estão por toda a parte, a fazer os serviços que os próprios portugueses não querem mais. Enquanto alguns portugueses vão para outros países europeus onde são mais bem pagos (sei de uma portuguesa que mora em Londres e de outro que mora em Amsterdam e trabalha com turismo), os brasileiros estão aqui nas limpezas, nos supermercados e restaurantes, em busca de um “lugar ao sol”, mesmo agora no outono e, em breve, no implacável inverno europeu, que exige agasalhos e sapatos muito diferentes daqueles que costumamos usar lá no nosso país tropical. Estão todos aqui, na luta por uma vida melhor, mais digna, mais completa, não só com comida, mas com comida, diversão e arte. É um direito legítimo, como bem expressaram os Titãs.

Ainda bem que nós não somos como as árvores, que não podem mudar de um lugar para outro. Eu me mudei. Muitos brasileiros também se mudaram para cá. Eu, por amor. Outros, por necessidade. Mas as nossas irmãs árvores simplesmente estão ali onde as plantaram ou onde brotaram naturalmente, com suas raízes e sua força.

Quando a gente as abraça e ouve a seiva a correr do solo pelo seu tronco até as folhas mais altas, a gente sente essa energia telúrica, e percebemos a sinfonia da VIDA em movimento, embora elas estejam ali paradas. Percebemos que o segredo da vida é justamente o movimento. E nós todos, todos os habitantes do planeta, sem exceção – ainda que não mudemos de país – estamos sempre em movimento, em direção ao que consideramos uma vida melhor, mais equilibrada, mais feliz.

Não leio mais jornais e nem vejo as notícias na TV ou nos portais de notícias na internet. Mesmo assim, as redes sociais me informaram que há uma “nova” guerra entre palestinos e judeus. E isso me entristece profundamente. Não sei dessa situação em detalhes e não me interessa saber quem tem razão. Só sei, e tenho certeza absoluta, de que a guerra não resolve nada. Só o que resolve é o AMOR. Outro dia, postei outra frase que eu adoro, desde sempre: “O amor é a resposta, não importa a pergunta”, também de autoria desconhecida. Ah, e como falta amor nesse nosso planetinha azul... Como é triste constatar isso, mas é a mais pura verdade. Como me sinto mal perante tanto mal... Só posso escrever e rezar. Peço que as pessoas que estão à frente desse combate irracional que se lembrem de cultivar dentro delas os sentimentos de amor e fraternidade. Não é grande coisa. Mas é a única coisa que está ao meu alcance agora.

Também tenho dedicado um tempo do meu dia ao estudo do tarot de Marselha. Ganhei o baralho do meu amor, quando estivemos em Aveiro, em direção à Arouca e depois Gerês. Sim, apesar de “reformados” (aposentados), nós nos demos férias. Estávamos precisando tanto... E recarregar as baterias junto da Natureza faz um bem danado. Caso você não saiba, todos temos direito a férias (mesmo aquelas pessoas que não estão a trabalhar por qualquer que seja o motivo). Mas este também não é o texto para falar das belezas de Arouca e do Gerês, a zona mais linda e de natureza mais pura de Portugal, na nossa opinião.

Voltando ao tarot, ele é um portal para o inconsciente e eu tiro uma carta dos 22 arcanos maiores por dia, estudo o seu significado e sinto a sua vibração. A de hoje foi a Temperança. Ah, como o mundo precisa de Temperança... Palavrinha quase fora de moda, mas que nos convida a temperar o gelado e o quente, até chegar ao morno, o equilíbrio ideal. E volto à maldita guerra. Pego minha varinha mágica, que recolhi em meio à Natureza, e invoco deuses e deusas a pedir que a Temperança inspire as “autoridades” em todo o mundo (e a guerra da Rússia e da Ucrânia, em que pé está?) a simplesmente pararem de mandar matar as pessoas, sobretudo as crianças inocentes. Não consigo compreender como neste ano de 2023, quando na minha infância eu achava que estaríamos todos a viver em um mundo tipo Jetsons, a humanidade ainda não aprendeu que o AMOR é o mais importante. Simples assim. Ah, se pelo menos eles “ouvissem” os conselhos das árvores...