terça-feira, agosto 09, 2011

O biscoito fino

O biscoito fino, ainda que chegasse às massas, talvez não pudesse ser saboreado em todas as suas nuances. Afinal, não é fácil apreciar o biscoito fino. É nisso que penso ao concluir a perturbadora e indispensável leitura de "As calotas não me protegem do sol", livro de Paula Corrêa, ilustrado por Amanda Justiniano e dedicado a Calu (sua mãe?).
Dá uma vontade tão grande de compartilhar com todo mundo o prazer e o encanto que a leitura me proporcionou! Mas será que todos compreenderiam? Será que se o livro dela fosse um post no Facebook seria curtido por milhares (milhões?) de pessoas, como mereceria?
Provavelmente não.
As massas talvez não estejam ainda preparadas para o biscoito fino. Para digeri-lo, é preciso ter um tantinho de bagagem de vida e de ferramentas para decifrar sua combinação sutil de palavras. É preciso ter um olho um tanto quanto sensível para entendê-la quando ela diz que se comunica mais pelo pensamento do que pelo sentimento (algo assim).
Ou até mesmo para entender quem são os personagens nessa trama funda de dor e de perda. E de como lidar com essa dor. Depois dela e da mãe, vem a inocência e a cumplicidade do cachorro Astor. Depois, tem a irmã, a sobrinha Sofia. E só. A casa. A paisagem interior...
Ela passeia com desenvoltura por entre os espaços que sobram entre as palavras, cuidadosamente escolhidas e usadas com precisão cirúrgica. Ao abolir a pontuação tradicional, deixa o leitor sem fôlego e trôpego para acompanhar seus volteios linguísticos.
Ela se revela e se esconde. Nos adjetivos "triste" e "confortável", repetidos aqui e ali. Concluímos que ela se sente confortável na tristeza. E é assim, nesse exercício catártico e solitário que o livro se entrega ao leitor. Isso sem falar na beleza das ilustrações que pontuam as sentenças com traço forte e decidido.
Trata-se de um biscoito ultrafino que exemplifica uma vida e uma ausência.
A leitura flui por entre os claros e escuros da sua alma, ora perturbada, ora completamente entregue à dor, ora espreitando pela fresta da janela, para encontrar de novo uma luz, uma esperança que seja.
A vida é assim mesmo, Paulinha.
E é aí que reside a grandiosidade e a universalidade dessa sua obra de arte verdadeira.
Dizer só "gostei" jamais seria suficiente.
Parabéns, Paula. Continue assim!
Sua mãe deve estar orgulhosa da filha que tem. Ainda que você não creia nisso agora. Talvez no futuro, você venha a compreender os comos e os porquês. Por hoje, foi lindo ver como você foi capaz de produzir a alquimia de transformar a dor em literatura da melhor qualidade.
Beijos comovidos da sua mais nova fã.

7 comentários:

  1. querida silvia,
    é um bálsamo a leitura do seu texto. eu que te agradeço, pela leitura sensível, pelo olhar delicado e pelas lindas palavras.
    um abraço apertado, paula

    ResponderExcluir
  2. Anônimo5:55 PM

    Depois dessa beleza de "crítica literária" estou ansiosa para ler o livro da Paulinha, que mesmo sem ter lido uma só linha desta obra, já sou fã!:-) Ana Sartori

    ResponderExcluir
  3. Anônimo9:33 AM

    Obrigado pela constatacao da minha nao existência.

    ResponderExcluir
  4. Não entendi o último comentário! Quem disse isso, please?

    ResponderExcluir
  5. Silvia, que lindo texto sobre o livro. Fiquei com muita vontade de ler. Que poesia, que profundidade. Obrigada! Agora, vou procurar o livro da Paula!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ro, a Paula vai relançar o livro dela nesta próxima sexta às 19h na Livraria Cultura do Cjto. Nacional.

      Excluir

Sua participação é muito importante para nós!