quarta-feira, dezembro 27, 2017

Porque acredito em Papai Noel


Papai Noel, o bom velhinho, Pai Natal, aqui em Portugal.
Eu acredito.
Acredito na bondade humana, acredito na felicidade que o ato de presentear proporciona não somente a quem recebe uma prenda, mas sobretudo a quem a oferece.
Acredito que os dons não materiais são os mais importantes, é claro. Mas nós vivemos em um mundo material, nossa alma está revestida de matéria, o tato é um dos cinco sentidos que integram a nossa existência. Não dá para simplesmente desprezar tudo o que é material.
As árvores nos ensinam a lição da abundância, da prosperidade, dando mais frutos do que somos capazes de consumir. E o ato de doar é sugerido simplesmente quando observamos uma laranjeira, toda carregada, como são tão comuns aqui no Algarve. A laranja daqui tem um sabor diferente.
Doação, presentes, abundância.
Quanto mais se doa, mais se equilibra o fluxo da abundância na nossa vida.
Portanto, o Papai Noel está certíssimo em distribuir presentes a todas as crianças do mundo.
Ao fazer isso, ele se multiplica pelos países afora, encontra eco nos representantes que possui ao redor do mundo,
Neste Natal, ouvimos os sinos do seu trenó, na casa onde fomos recebidos calorosamente para passar a meia noite e também no almoço de Natal do dia seguinte.
Fizemos o famoso amigo-ladrão, demos muitas risadas, comemos e bebemos até nos fartar.
Mas o momento mais mágico, sem dúvida alguma, foi quando soaram os sinos pendurados no trenó do Papai Noel.
Como não acreditar??
A raça humana precisa disso. Precisamos de presentes, de risos, de abraços e de nos sentirmos acolhidos.
O melhor presente? Sem dúvida nenhuma foi graças à tecnologia do WhatsApp, quando uma ligação de vídeo conseguiu reunir vovô e vovó aqui no Algarve, filho, nora e neta, no Brasil e filha no Líbano.
E quem me disser que Papai Noel não existe, me desculpe... Mas você está redondamente enganado!
Feliz 2018, ALLmigos!!!! (adorei a expressão aprendida com a Sandra Santin!)

sexta-feira, dezembro 15, 2017

Parabéns, Biba!


Ela me diz que sou desafinada. “Não sei como você pode cantar no coro, sendo tão desafinada. Mas é verdade!” Sagitariana, ela não se incomoda se a verdade dói. Às vezes a verdade dói. Ou às vezes não se tem apenas uma verdade e sim a verdade de cada um. Escorregadia é a verdade de uma geminiana, a mãe, eu. Ela chama de dupla personalidade. De bipolar. Prefere ficar com as amigas do que com os pais. Virou vegana e ama tatuagem e balada. Mas tem um coração enorme. Assistente social, quer mudar o mundo. Visionária, como boa sagitariana, está sempre com o arco e a flecha em posição de atirar. E está sempre com a mala pronta. Mas não quer ir para os países comuns. Este Natal e a passagem de ano ela estará no Líbano. Líbano? Cê tá doida? Descabelam-se os pais. Mas não adianta nada. A passagem já está comprada, ela vai com a amiga que conhece dois rapazes de lá. E haja coração. Haja compreensão para entender as diferenças, para entender que ela não é mais aquela menininha loirinha de cabelos cacheados que “não tinha sobrancelha” de tão branquinha que era. Independente, desde bebê. Agora, ela chega ao quarto de século. Um marco. Não precisa mais da gente, mas só até a página 2. Já tem o quarto dela aqui no Algarve. E por mais que tenha bancado algumas das despesas desta viagem, reclama que está sem nenhuma calça jeans ou que precisa de um isso ou aquilo novo. Esta é a nossa garotinha. A Marjorie? Ãhn? Mar-jo-rie. Ah, tá. Mas pode chamar de Biba que ela gosta, foi o apelido escolhido pelo irmão.

Se eu não tiver feito nada de útil nesta minha vida, coloquei, com a participação do Guilherme,  uma pessoa bacana no Planeta Terra. E me dou por satisfeita. Quero que ela seja escandalosamente feliz. E que encontre um trabalho que valorize a sua vocação. Que escolha os caminhos mais retos, sem atalhos, e que viva cada dia da sua vida de forma plena. Ela sabe que, qualquer coisa, eu e o papai estamos sempre pertinho. Nem que seja em outro país.


Parabéns, minha filhota, minha bebê, minha amada. Feliz aniversário! Curta o seu dia, seu novo ano pessoal, sua nova fase da vida, suas conquistas, suas viagens. Levante voo, alcance seus objetivos. Trace a sua vida com responsabilidade, pois o destino não nos oferece borracha. Desenhe o seu futuro e, quando chegar lá, lembre-se sempre de nós, que te amamos mais do que qualquer amigo ou amiga que você poderá ter. Nosso amor é incondicional. Não depende de nada que você faça ou diga. Porque se dependesse.... rsrsrs 

quinta-feira, dezembro 14, 2017

Querida, vamos ver a chuva de meteoros?


Ontem à noite, vi minha primeira chuva de meteoros da vida. E olha que tô beirando os 60! Foi uma emoção absolutamente fantástica. Cometas e mais cometas riscando o céu. Não tô nem aí para o nome científico, Cometas? Estrelas cadentes? Meteoros? Deixo a questão para os cientistas resolverem. Para mim, eram os cometas que eu aprendi a desenhar quando estava na escola primária, mas nunca imaginei como eles eram de verdade. Sou da geração que esperou (e não viu) o cometa Halley, em 86. Quando vi o primeiro, ontem, não me contive e comecei a pular (literalmente) de alegria. Os demais me arrancaram gritinhos de felicidade. Eu me senti com uns 5 anos de idade, por aí.

Fui teletransportada para as noites de verão no sítio do tio Mingo, em Ribeirão Preto, quando meu pai e eu nos sentávamos em um banco no jardim, bem longe do pessoal que via novelas, e ficávamos conversando sobre a vastidão do Universo, sobre ETs e discos voadores.

Ontem à noite, com a Solange, minha mais nova "amiga de infância", que conhecemos aqui em Portimão, o meu marido e companheiro de todas as aventuras, e mais uns amigos da Solange do Rio de Janeiro que tiritavam de frio, fomos à praia do Alvor e viramos as cabeças para o alto, a observar a constelação das Três Marias (a única que consigo identificar) e a tentar adivinhar onde estava a constelação de Gêmeos, referência o espetáculo. Não demorou muito, a primeira estrela cadente desfilou diante dos nossos olhos. E mais uma, e mais uma.... Me disseram que para fazer o tal do pedido, a gente não podia dizer nada quando visse a estrela cadente. Mas eu não me contive. Cada uma que riscava o céu ganhava um oh!! de admiração e encanto.

Não fui a este estupendo programa noturno despreparada, não! Li algumas matérias na Internet e, principalmente, o texto do jornalista especializado em Ciências, Ulisses Capozzoli. Ele consegue unir poesia, literatura, religião de ciência com seu talento primoroso. Olha só esse trecho:

"Eça de Queirós (1845-1900), com o pessimismo que caracteriza escritores portugueses, disse que “não há nada de novo sob o sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe, mais se pena. E o justo, como o perverso, nascidos do pó, ao pó retornam”. Atualíssimo, mas talvez amargurado demais. As coisas todas, ainda que não tenhamos atenção para isso, são, cada uma delas, originais. Cada ocorrência se dá num contexto único em termos cósmicos e essa é uma das belezas da ciência, em relação à religião, para descrever o mundo. Na descrição religiosa, Deus descansou no Sétimo Dia. É um deus cansado e limitado. Na versão da ciência, há um deus, se quiserem pensar assim, original a cada instante do tempo. Inventivo como só um deus poderia ser. A ortodoxia e o obscurantismo nos levam na direção do primeiro. Agora, mais que nunca. Mas, o promissor, é o segundo."

Ontem à noite, foi um evento absolutamente original na minha vida. A previsão era de dois a quase três meteoros por minuto. Não vi tantos assim, mesmo porque minha visão não é e nunca foi das melhores. Mas até eu, meio ceguinha que sou, pude apreciar esse que foi um dos mais belos espetáculos da Natureza que já vivenciei até hoje.

Muitos podem pensar que estou a exagerar. Mas acontece que sou uma pessoa que nasceu e sempre morou em São Paulo, aquela Selva de Pedra. Lá, a gente nem liga para que lado o vento está a soprar ou para o caminho que o sol faz pelo céu. No máximo, a gente admira os arco-íris, pois é impossível se manter indiferente àquelas luzes coloridas no céu, quando chove e faz sol simultaneamente.

Para mim, foi um espetáculo. E eu nem tinha tantos pedidos assim a fazer. Se o canal de comunicação com o Divino estava mesmo aberto, eu aproveitei para agradecer. Por tudo de mais maravilhoso que a Vida está a me proporcionar desde que resolvemos seguir os nossos corações e mudar completamente o rumo das nossas vidas. Gratidão! Aos astros, a Deus, ao Universo.


quarta-feira, dezembro 06, 2017

Nossos amigos portimonenses


Quando chegamos aqui a Portugal, com exceção do nosso "sobrinho" Ricardo, que foi nosso anjo da guarda nessa jornada além-mar, não fizemos tantos amigos portugueses, e muito menos portimonenses. Mas isso mudou! Graças ao meu querido marido extrovertido, travamos conhecimento com o sr. Fernando, tradicional alfaiate aqui da cidade de Portimão. A alfaiataria dele dá gosto de se ver. Um capricho sem igual. Chamou-nos a atenção a vitrine (que aqui se chama montra) toda bem montada e organizada. Entramos para bater um papo, sem compromisso, e fomos tão bem recebidos, que até nos comovemos. O sr. Fernando fez questão de nos contar que fez um colete para o príncipe da Inglaterra, além de trajes elegantes para outras pessoas, artistas de circo e contou-nos que ficou muito amigo de vários clientes. Mostrou-nos croquis e recortes de jornal.

Hoje em dia, ele trabalha porque não sabe fazer outra coisa. "Se eu parar de trabalhar, eu morro", costumava dizer à mulher, já falecida. Mas se algum amigo o convida para um café, a plaquinha “volto já” entra em ação e ele sai para tomar o café, sem culpa alguma. Teve que começar a aprender a cozinhar, depois que a esposa morreu. E tem se virado muito bem, sim senhor. O filho mais novo até leva marmitas, quando vem visitar o pai. O mais velho dirige o maior hospital de Lisboa. Com que orgulho ele fala dos seus filhos! Coisa bonita de se ver.


Essa conversa toda foi em uma sexta-feira. Como não soubéssemos o que são figos torrados, ele se prontificou a nos levar alguns na segunda-feira seguinte para experimentarmos. E lá fomos nós. Que surpresa mais agradável! O sr. Fernando não só tinha levado os figuinhos, como ainda levou cálices especiais para provarmos o medronho de Monchique, "o verdadeiro", que também nos serviu, para nosso deleite. Levou ainda queijo de figo, um saboroso doce típico português, feito com figo prensado. Iguarias saboreadas com muita prosa, porque o sr. Fernando é muito bom de prosa. Conversa vai, conversa vem, ele nos apresentou o amigo Florindo.

O sr. Florindo tem uma história muito bacana também. Trabalhou anos e anos na companhia telefônica e passou a colecionar aparelhos telefônicos que são um verdadeiro tesouro, guardado a sete chaves em sua casa, onde nos levou e nos apresentou à sua esposa, dona Ludovina. Sua coleção de aparelhos telefônicos tem exemplares raríssimos, que mereciam constar na coleção de algum museu dedicado ao tema, aqui em Portimão.

Também tivemos o grande privilégio de conhecer a casa do sr. Fernando, tão bem arrumada e linda quanto a sua alfaiataria.


Depois, tentamos retribuir tanta gentileza com o convite para um almoço domingueiro aqui em casa. Os três vieram, elegantíssimos, me deram presentes e nos contaram anedotas. O sr. Fernando me presenteou com flores vermelhas, o símbolo do Natal. E o sr. Florindo levou um vinho de 1999, uma relíquia, daquelas que se guarda para uma ocasião especial. E como estávamos a viver uma ocasião mais do que especial, abrimos o vinho e o servimos aos nossos convidados. O sr. Florindo levou também dois daqueles deliciosos queijos de figo, que havíamos provado e até declamou alguns poemas. 

Nosso cardápio foi composto por uma massa, servida com molho branco e molho vermelho, ao gosto do freguês, e de sobremesa um doce de abóbora feito com cravo e cabela,e uma goiabada brasileira. Acho que eles gostaram!

Estamos muito felizes com a nossa nova amizade e esperamos que ela se prolongue por muitos e muitos anos. A vida é feita de doces momentos como esses, que, com a idade e a distância de casa, aprendemos a valorizar cada vez mais.


terça-feira, novembro 28, 2017

Liebster Award (ou, ói como estamos chics)


A querida amiga (por enquanto ainda virtual) Sandra Santos, do blog Mineirinha n'Alemanha, me deu o prêmio da ilustração acima e me passou 12 perguntas, que respondo agora:

1) Seu nome e apelido.

Silvia Regina, na infância. Depois, só usei o Silvia quase a vida toda. Recentemente, decidi assumir o Regina de novo, que significa “rainha”, por indicação de uma amiga querida, a numeróloga e taróloga (e jornalista nas horas vagas, rsrsrs) Priscilla Tavollassi. Nunca tive apelido, mas meu marido me chama de Tina. A sobrinha mais velha dele, Andréa, foi quem me deu esse apelido, quando começou a falar. Era o mais próximo de Silvia que ela conseguia falar. E ficou. Mas se outra pessoa me chama de Tina acho esquisito. Não tem nada a ver.

2) Quais são seus hobbies?

Adoro cantar. Entrei no coro do clube há uns 4 anos e continuo a cantar agora no Coral Adágio, em Portimão, onde moro desde junho deste ano. Gosto de tricô, bordado, mosaico, e estou fazendo as pazes com a cozinha. Estou curtindo cozinhar. Sou feminista desde criancinha. Por isso, não gostava de cozinhar, porque interpretava como uma tarefa imposta à mulher pela sociedade machista. Mas agora não enxergo mais assim. Estou até gostando.

3) Qual foi o conselho sentimental mais marcante que você já deu no seu blog?

Essa é fácil. Tem um post meu que explodiu de acessos e até hoje é o mais acessado de todos os tempos. Ele fala sobre traição e perdão e se chama Confiança se recupera?? Deu pano para manga, rende até hoje. Tem muita gente que pula a cerca e depois se arrepende.

4) Você sabe quais são as pessoas que você conhece que eu também conheço, pessoal ou virtualmente? Caso saiba, quais são elas?

Pensei que você fosse amiga da Ingrid Littmann e da Jacqueline Luz, que conheci na mesma época, pelo blog. Mas vi no Facebook (colei... rsrsrs) que vc é amiga da Mirella e do José Ruy Gandra.

5) Depois de ter lançado o livro de tantas pessoas, como foi a experiência de escrever seu próprio livro?

Já escrevi alguns livros.... O primeiro foi uma participação em uma coletânea de contos, ainda antes da editora. Depois, escrevi o livro dos 60 anos da Seara Bendita, com a querida amiga Rosane Muniz. O primeiro livro solo escrevi em homenagem à minha comadre Vilma que, infelizmente, foi mais uma vítima do câncer. E o meu mais recente livro não é um livro, e sim um e-book, à venda na Amazon, chamado Destino Algarve. A emoção de lançar um livro é sempre muito boa, quer seja meu, quer seja de alguém que tem o sonho de publicar seu livro e tem que enfrentar a máfia das editoras, que eu aprendi a driblar.

6) Fale um pouco sobre seu livro, o Destino Algarve.

O Destino Algarve é um livrinho muito despretensioso sobre a nossa aventura (meu marido e eu) de nos mudarmos para Portugal, depois de termos passado a vida toda em São Paulo, aquele karma coletivo. Conta sobre meu espanto e alegria em descobrir uma nova cultura, novos sabores e até mesmo uma nova língua! Em geral, são os filhos que saem de casa em busca de novos horizontes. No nosso caso, foi diferente. O e-book custa menos de um euro e está à venda na Amazon.

7) Como é sair da muvuca de Sampa e ir morar em uma cidade litorânea do sul de Portugal?

É uma maravilha, um sonho tornado realidade. Às vezes não acredito e me belisco para ver se não estou a sonhar. Escolhemos Portimão, porque acho que se fosse uma aldeiazinha muito afastada, talvez a gente não se acostumasse. Aqui tem tudo o que se pode desejar de uma cidade. Fomos muitíssimo bem acolhidos, a cidade nos abraçou e nós a abraçamos de volta.

8) O que mais te impressionou até agora com relação à vida europeia?

Nós já conhecíamos muito bem a Europa e Portugal. Mas uma coisa é passear aqui e outra é morar. Então, o que mais me impressionou não foi tanto algo externo e sim interno: aqui, eu me sinto muito mais relax do que em São Paulo. Eu sinto uma paz no meu peito indescritível. É uma delícia sair na rua à noite sem medo algum. Isso não tem preço. Claro que continuamos espertos, porque quem mora em São Paulo tem que ser esperto e isso a gente acaba levando com a gente. Mas sinto um enorme alívio no meu peito, uma paz, não corro mais para chegar a tempo nos compromissos, a ansiedade de enfrentar o trânsito, de ter que lutar contra o relógio, tudo isso ficou pra trás. Aqui a gente faz amizade com a paz.  

9) Desde que se mudou para Portugal, qual foi o lugar mais lindo que você já conheceu?

Nós ainda estamos a conhecer, mas a Ponta da Piedade é um lugar impressionantemente bonito. Amei também a praia da Marinha (a foto de lá está na capa do meu livro). O farol da praia da Rocha é belíssimo. O passadiço na praia do Alvor... Albufeira... A ria Formosa, em Faro.... Não dá pra escolher só um lugar. São tantos e ainda temos muito o que conhecer e explorar.

10) Qual é uma cidade ou país que quer conhecer em breve?

Quero aproveitar a proximidade com o Marrocos e ir lá comprar roupas e coisas para a casa. Acho que será uma viagem muito inspiradora.

11) Qual é sua música predileta e por quê?

Essa é muito fácil também: Imagine, do John Lennon. Estou a esperar que o mundo seja do jeito que ele descreveu e acredito que será. Não sei se estarei viva para ver. Mas tenho fé que o planeta Terra vai melhorar (aliás, acredito mesmo que já melhoramos muito),

12) Se você tivesse um único pedido para fazer para o gênio da lâmpada, qual seria esse pedido?


Essa é difícil. Aprendi que o nosso gênio da lâmpada somos nós mesmos. Somos nós, a nossa mente, que temos o poder de realizar tudo aquilo que quisermos e sonharmos. Mas, para entrar na brincadeira, pediria ao gênio da lâmpada uma velhice lúcida e saudável, sem dar trabalho pra ninguém, para que pudesse ter uma passagem suave e tranquila para o plano espiritual. Acho muito tristes a velhice e a decrepitude. Embora eu vá completar 60 anos no ano que vem, não me considero uma idosa. A nossa viagem para Portugal foi a nossa fonte da juventude. Continuamos a estimular nossos neurônios e sinapses para ficarmos saudáveis mais tempo possível. Mais do que pedir, eu quero mesmo é agradecer. Por tudo de bom e de ruim que aconteceu na minha vida e que culminou com a chegada a esse paraíso na Terra. Como diz uma amiga brasileira que mora aqui há mais de 20 anos: “não foi preciso morrer para chegar ao paraíso”. É isso que eu sinto também. 

Para não acabar aqui a brincadeira, vou indicar o único blog que ainda conheço, embora seja um blog de viagem, em que não sei se cabe um post desse tipo, que é o Casal Mikix, da Mirella. 

Caso ela tope participar, seguem as perguntinhas: 
1) Nome e apelido
2) Em quantos países já morou?
3) Desses países, de qual mais gostou?
4) Qual foi a coisa mais doida que aconteceu em uma viagem? 
5) Qual foi a comida mais esquisita que comeu nessas viagens?
6) E a mais gostosa?
7) Onde ainda quer voltar?
8) Qual será a próxima viagem?
9) Onde não voltaria jamais?
10) Onde não quer ir de jeito nenhum?
11) Quando virá me visitar?
12) Quais seriam seus 3 pedidos para o gênio da lâmpada? 

Mirella, aqui estão as Regras do Jogo:

– Inserir no post a imagem com o selo Liebster Award.
– Escrever 12 fatos sobre você
– Responder as perguntas de quem indicou a TAG.
– Fazer 12 perguntas p/ os blogs que você indicar.
– Linkar de volta quem te indicou!

sexta-feira, novembro 17, 2017

As cartas não mentem jamais


Conheci o Mauro Castro (virtualmente) já faz um tempão. Como assim, um taxista que escreve tão bem?? Primeiro, não acreditei, achei que era truque de algum escritor famoso, um pseudônimo do Luís Fernando Veríssimo (de quem também sou fã). 
Mas não... o Mauro é taxista de verdade e mora em Porto Alegre. Ele até já deu entrevista para a Fátima Bernardes. Sabe aquelas pessoas que têm o dom? Pois então. O Mauro é desses. O táxi é a desculpa para ele coletar e contar histórias pitorescas, engraçadas, curiosas e inesperadas. Mas hoje, ele contou uma linda história de amor. E eu pedi sua permissão, gentilmente concedida, para reproduzi-la aqui no Consulta Sentimental. Delicie-se......
***
Chuva batendo, trânsito lento, passageirinha de 91 anos, resolve contar sua história a este taxista metido a escritor.
- O senhor pode escrever, é tudo verdade. Noivei com 15 anos, muito novinha, mas logo meu noivo, que já servia à Aeronáutica, foi enviado para os Estados Unidos, para fazer um curso. Ficou lá por 5 longos anos. Nos correspondíamos por carta. O carteiro da minha rua já sabia: quando chegava correspondência da América, ao invés de apenas largar na caixa, ele gritava "carteiro!", gostava de me ver feliz, aos pulos, ele era jovem como eu, também tinha a urgência do amor, me entendia. Foram centenas de cartas. A grande guerra, o mundo em chamas, meu noivo ganhando importância, piloto, professor, promovido, medalhas, quando finalmente conseguiu voltar para o Brasil, ficou retido no Rio de Janeiro, novos cursos, treinamentos, Força Expedicionária Brasileira, as cartas, milhares, cartas longas, chegando, sendo enviadas, o tempo passando, sete anos, o amor crescendo, a cada nova carta o coração batendo mais forte, antes que meu noivo voltasse, uma carta de despedida, o tempo passou, tempo demais, tantas cartas. Quando ele finalmente voltou ao Rio Grande do Sul eu já estava casada. Casada com o carteiro. Vivemos felizes por 65 anos.


sábado, novembro 11, 2017

Mais uma história de amor


O Capitão Sérgio convidou a gente para uns vinhos e petiscos na casa dele. Fomos. Lá chegando, conhecemos a Susana, que levou um doce feito por ela, de abacaxi com creme muito gostoso!

O amigo do Capitão de longa data, o Tito, nasceu na Ilha da Madeira. Esteve na guerra e viu a morte bem de perto. Morou muitos anos no Brasil. Hoje, se divide entre o Algarve e Coimbra.

A Susana nasceu com a ajuda da parteira, na casa do Tito. Casou, teve uma filha, separou. E agora os dois estão juntos. Ela está a ajudar o Tito a deixar o novo apartamento algarvio nos trinques. Formam um belo casal.

Essa história reforça minha teoria: procure seu amor no passado.

Além dessa história, tem a da Roberta e do Rodolpho, da Priscilla e do Giba, da Cacau e do Milton, da Rose e do namorado dela.... tem muita gente que se encaixa nisso. Por isso, que tal olhar para o passado em busca dessa sua felicidade amorosa, hein?? 

Também falo da minha teoria no meu e-book, o Destino Algarve, à venda no site da Amazon, no seguinte endereço:
https://www.amazon.com.br/Destino-Algarve-velho-mundo-Portuguese-ebook/dp/B075HQGDHH

terça-feira, outubro 10, 2017

Quando foi que eu fiquei velha?


Saiu este post no grupo "DR entre jornalistas e assessores" no Facebook:

Olá!
Alguém assessorando escritores jovens com livros publicados recentemente? 


Não aguentei... e respondi:

Olha, Beatriz, eu entendo que você está em busca de escritores jovens, mas será que esse recorte não é um pouquinho preconceituoso? O que é jovem? Hoje eu me olhei no espelho e perguntei a mim mesma: "quando foi que você ficou velha?". Tenho 59 anos e, embora a sociedade insista em me colocar o rótulo de "velha", eu o rejeito, com todas as minhas forças. Acabei de lançar meu primeiro romance, na verdade é um e-book e está à venda apenas na Amazon. As pessoas da minha geração mal sabem o que é um e-book, quanto mais preencher toda aquela ficha lá e pagar com cartão de crédito, pela Internet, algo tão imaterial quanto um e-book... Mas algumas amigas conseguiram passar por esta peneira e leram o meu livro e disseram que gostaram.
Neste livro, conto a minha experiência (e do meu marido) de nos mudarmos no primeiro semestre deste ano para Portugal. Em geral, são os filhos que saem de casa. Mas com a gente foi diferente. Deixamos toda a nossa história de vida no Brasil e partimos para uma nova vida no velho mundo.
Meu livro é dividido em partes que se encaixam: o Ontem e o Hoje. No “Ontem”, reproduzo alguns textos que escrevi quando tinha apenas 13 anos. Eu era então uma jovem escritora!
Quando cheguei aqui em Portugal, ganhei do meu querido amigo Ricardo de Jesus, dois livros da escritora portuguesa Rosa Lobato de Faria e me apaixonei pelo estilo dela, pela leitura fácil, pela cultura portuguesa impregnada nos parágrafos. Foi nela que me inspirei para escrever o meu romance. E você acredita que ela lançou seu primeiro romance – “O Pranto de Lúcifer” quanto já tinha seus 63 anos? Para mim, ela era uma jovem escritora, quando teve a coragem de lançar seu primeiro romance, já sessentona. Fez o maior sucesso. Pena que morreu tão jovem, com apenas 77 anos. Tá vendo? Por isso que eu acho que essa conversa de “jovens escritores” realmente não condiz com a nossa época.
Se alguém aguentou a leitura até aqui e tem curiosidade, o meu livro se chama “Destino Algarve” e está participando do prêmio Kindle de Literatura. Custa aproximadamente 1 euro e pode ser comprado no seguinte link: 

(mas somente por quem estiver no Brasil, para outros países, o link muda).

sábado, setembro 09, 2017

Adeus, dona Florência!


Rezo aqui sozinha e peço a Deus que a receba aí no céu com uma grande festa, com muita azeitona, pão caseiro, biscoito de polvilho e queijo provolone. De sobremesa, bombom sonho de valsa.

No ano que vem, a gente ia fazer uma grande festa, pelos seus 100 anos. Mas não deu tempo. No dia 9/9, aos 99 anos, a senhora decidiu partir.

Muito obrigada por sempre ter me tratado tão bem, por sempre me chamar de "anjo", por ter cuidado e mimado os meus filhos, sempre que eu precisei. 

Obrigada pelas suas deliciosas comidas, temperadas com todo o seu amor e carinho para nós: frangos suculentos, pastéis inesquecíveis (que a senhora fazia até a massa!), seus pudins de leite, e suas carnes cheias. Eu me lembro muito bem como a senhora fazia: colocava tudo em travessas de vidro, empilhava umas por cima das outras e amarrava em umas trouxas de pano de prato com muita força, para não caírem no caminho de volta para casa.

Obrigada por todos os presentes e mais presentes, que a senhora comprava com tanto sacrifício, em crediários infinitos nas Casas Bahia. Me deu dois liquidificadores! Estão até hoje lá em casa. 

E os pudins que a senhora levava para dar de presente para as meninas do hospital? E no Jóquei? A senhora tratava todo mundo por querido e querida. Às vezes, a senhora ficava brava também, e não deixava de encarar uma boa briga, se preciso fosse. 

Quanto a senhora lutou nessa vida, hein?? Teve tudo na infância, levava presentes para a professora, para que pudesse ficar do lado de fora da sala brincando. 

Mas perdeu o pai muito cedo, precisou ajudar a mãe, encantou os rapazes com toda a faceirice de menina moça, usava uma flor nos cabelos ondulados. Ganhou um concurso de culinária, preparando dois frangos no lugar de um - um dos frangos era só a pele, recheada de farofa. Quanta criatividade! Dançou tango, e conquistou aquele jóquei magrinho, que, de tão apaixonado, cobriu-a de jóias, casacos de pele, perfumes.   

Passados os tempos áureos da juventude, a senhora ainda usava aqueles xales de todas as cores e até foi parada na rua para ser fotografada para um blog de moda e estilo, lembra? Quando ia comigo na Seara Bendita. Nunca saia de casa sem um xale ou um lenço, super charmosa e elegante. De preferência verde, que era a sua cor preferida. 

Minha querida sogra, rezo agora e peço a Deus que envie os seus mensageiros mais felizes para recebê-la aí no céu. Que a senhora possa se reunir novamente com todos os seus parentes e amigos que partiram antes. 

Envio daqui da Terra as vibrações mais amorosas que sou capaz de transmitir, para que tenha muita LUZ no seu novo caminho, minha sogra tão querida. Obrigada por tudo. 

sábado, setembro 02, 2017

O que foi que aconteceu com a nossa criatividade?


Uma pessoa posta uma determinada foto naquela famosa rede social. Na maior parte dos comentários encontraremos a palavra "linda". É uma boa palavra, Inclusive tenho uma amiga querida que se chama Linda. Nada pessoal contra a palavra em si.

Mas, vamos combinar, que existem muitos outros adjetivos que estão abandonados, à míngua, em desuso, porque todo mundo (inclusive eu mesma) usa o "linda" à exaustão. Vamos exercitar a criatividade, minha gente: formosa, bela, graciosa, simpática, adorável, deslumbrante, elegante, encantadora, extraordinária, maravilhosa, exuberante, primorosa, perfeita, magnífica, formidável, bem-apessoada, garbosa, esplêndida, estupenda etc. etc. etc.

Por que ficar só no "linda"? Eu me pergunto.


sexta-feira, setembro 01, 2017

Dormir em quartos separados pode salvar seu casamento



Vou te contar o que nunca ninguém te contou sobre o casamento...
Ele não é sempre um mar de rosas, mas isso você já deve imaginar, né??
Toda aquela beleza e poesia da cerimônia de casamento não dura a vida inteira, de jeito algum. E se alguém disser que sim, está mentindo.
Vocês vão brigar, discutir e até se desrespeitar algumas vezes. Vão dormir brigados, vão se perdoar, vão resolver tudo na cama, vão ser cúmplices um do outro, fazer planos, ter filhos, brigar um pouco mais, se xingar, se arrepender de ter xingado, ficar sem se falar um dia, alguns dias. Um vai querer uma coisa e o outro, outra. Um vai querer dormir no claro e outro no escuro. Um vai ter frio, outro calor. Um vai roncar e atrapalhar o sono do outro. Você vai ficar com raiva. Ou vai despertar a raiva.
Um vai querer transar e o outro vai querer dormir, ou vai estar com dor de cabeça, ou cansado, ou em outra.
Mas se tiver amor, os dois vão passar por cima de todas essas picuinhas.
Nada disso é razão para separação.
Eu acho que nem mesmo a traição (se houver arrependimento) não é motivo de separação.
Você quer ser feliz. Ele/ela também.
Para um casamento feliz, a fórmula mágica é fazer o outro feliz. Colocar o outro em primeiro lugar (e não o seu orgulho bobo).
É assim que você cria o círculo virtuoso.
Mas a minha dica de ouro é: durmam em quartos separados.
Se você está com uma "vontadinha" de separar, pode funcionar. Se for uma "vontadona", aí pode ser que não.
Não precisa combinar isso. Apenas dê boa noite e diga que hoje você vai dormir no outro quarto (ou na sala). E durma lá.
No dia seguinte, dê bom dia e pergunte se ele (ou ela) dormiu bem
Eu juro que só isso já vai resgatar um pouco do clima de namoro, do qual você já se esqueceu.
Se você acordar antes, prepare o café da manhã dele (ou dela) e leve na cama, em uma bandeja bem bonita.
Mas não se iluda.
Aquela paixão do comecinho do namoro, aquela chama, aquele ardor, isso não volta mais.
O tempo anda pra frente, o relógio não volta e uma onda não quebra duas vezes na praia.
Se ainda tiver amizade, companheirismo, respeito, aquele amor calminho e suave, não desperdice isso. Conserve o seu amor.
Conheço muitos casais felizes, que dormem em quartos separados.
A felicidade sempre está onde a pomos. O problema é que quase nunca a pomos onde nós estamos.
Depois, me conte se funcionou.

sexta-feira, julho 28, 2017

Cacilda e Deolinda


Minha amiga Luciana Praxedes, que tem o dom da escrita e já escreveu algumas vezes aqui, me "emprestou" mais um dos seus textos inspirados e "bordados" com muito amor e carinho para as suas duas avós, para eu publicar aqui no Consulta. Como todos os textos muito bem tramados e urdidos, o dela, embora fale de pessoas muito particulares, tem a capacidade de alcançar a universalidade das avós deste planeta Terra.

Parabéns, Lu! E obrigada pela honra de compartilhá-lo aqui no meu espaço internético.

ELAS

No final de junho comecei um texto para tentar traduzir em palavras a saudade que sinto, sentia e sempre sentirei dela, da minha avó Cacilda. A emoção não permitiu que eu fosse capaz de concluir este desabafo, mas eis que a vida, com suas esquinas e travessuras, praticamente me obriga a rascunhar algo. Para deixar o coração mais leve ou apenas para repetir ao universo o que ele já sabe, divido com vocês meu sentimento.

Cacilda

Acho que sempre será impossível falar, pensar ou escrever sobre a senhora sem deixar que algumas lágrimas me façam companhia. O tempo passou, já são quase 30 anos que a senhora virou luz e foi brilhar do lado de lá, mas ainda assim, vira e mexe, algum cisco entra no olho. 

A gente se fala com frequência, mas rolou muita coisa por aqui enquanto a senhora virou encantada. Eu cresci (literalmente!), estudei (bastante, como a senhora sempre previu), me apaixonei, desapaixonei, construí relações, fiz amigos, viajei. E lembra aquele carro cor-de-rosa que seria nosso? Eu comprei um carro! Mas não tinha cor-de-rosa. Era preto e se chamava Vulcão. E nos nossos quase três anos de relacionamento sério, nem um dia sequer, ao estar dentro dele, deixei de lembrar como seria levá-la para passear por aí. 

A mãe, sua filha querida, está lindona! Continua a figura rara de sempre, dando nó em pingo d´água. A gente ri, chora, conversa, ri de novo, conversa mais um pouco e seguimos assim: companheiras uma da outra. Juntas. Sempre juntas! Se a senhora ainda estivesse por aqui, certeza de que aquele romance histórico, “Os Três Mosqueteiros”, seria reescrito numa versão tropical, feminina, arretada e bem-humorada. 

E como falar de humor sem lembrar da sua gargalhada e do jeito que todo o seu corpinho se balançava sempre que alguém contava um “causo” ou quando a Lucilene, minha irmã e sua outra neta, aprontava das dela?! Se eu fechar os olhos agora, sou capaz de reproduzir em minha mente (ou seria no meu coração?!) o som mágico que emanava da senhora.

Não posso esquecer de contar que estou cuidando deles. Do pai e da mãe. Do jeito que a senhora faria. Mas a senhora acredita que eu tenho fama de chata?! Precisava tê-la aqui para me defender. Eles me chamam de general só porque eu controlo a comilança de doces ou pego no pé quando faltam na academia... Só isso. Mas eu não estou certa, vó?! 

Vó, eu sei que a senhora está sempre comigo. Por isso preciso pedir um favor. A minha outra vó, a Deolinda, lembra-se dela?! Então, ela também virou luz. Acho que será sua vizinha. A senhora cuida dela pra mim? Cuida dela pra gente? Só um lembrete: nunca, em hipótese alguma, pergunte quantos anos ela tem. Isso deixa a dona Deolinda “avexada”. É besteira, eu sei. Ela também sabe. Mas por que criar caso, né? O que importa mesmo é que agora o céu e o universo contam com mais duas estrelas. As estrelinhas mais arretadas que se tem notícia na história das galáxias. Nem posso calcular a bagunça boa que vocês duas irão aprontar. Promete uma coisa? Quando tocar “Cintura Fina”, do Gonzagão, pensa em mim? 

Deolinda

Sabe o par de olhos azuis mais lindos que eu já vi? São os seus, vó. Sei que a sua vida acaba de mudar, mas olha só: vai dar tudo certo. Não tenha medo, não. Já conversei com a vó Cacilda e ela irá cuidar da senhora. Tenha nela uma amiga, alguém para estar ao seu lado quando precisar de um colo quentinho e cheiroso. 

Eu tenho dificuldade com esse negócio de despedida, mas se teve algo bonito no seu desencarne foi perceber que o amor estava lá do seu lado. Amor em forma de filhos, netos, cunhados, noras e amigos. Seus meninos e sua menina estão sofrendo, cada um do seu jeito, mas todos têm a mesma certeza: a vida nunca acabará enquanto houver amor. E teve. E tem tanto amor, vó.

Até agora eu dou risada sozinha ao lembrar a nossa última conversa. Eu, inconformada, querendo entender o motivo de não ter nascido com o seu par de olhos azuis. A senhora achando graça e tentando me consolar. E eis que o pai, todo metido, pergunta se eu, a filha do Zé Vermelho, não sou a que mais parece com o meu avô Chico entre tantos rostos existentes na nossa grande família. A senhora, toda compenetrada, me olha séria para avaliar se a afirmação tem mesmo validade. E me diz: “pois é, parece mesmo com Chico. Até o jeito todo ‘renhenhem’”. Eu devolvo: “mas o que é ‘renhenhem’, vó?”. A senhora esclarece: “você é bagunceira como o Chico, minha filha”. E o coração desta neta só fez explodir de tanto orgulho. Porque percebi nessa frase que ele, o avô que a vida não me permitiu conhecer, iria ajudar a vó Cacilda a cuidar da senhora. Não sei explicar direito, mas tive uma certeza esquisita de que eu e a senhora, de alguma forma, estávamos nos despedindo.

Mas não fique triste, não. Ainda estamos muito emocionados por aqui, é verdade! Mas tudo aconteceu como deveria acontecer. A senhora não precisa olhar para trás: eu, a Jane e meus outros primos e primas cuidaremos da sua prole. Seus meninos e a sua menina ficarão bem, vó. Pode acreditar. Já sinto saudade das suas histórias sobre o sertão e do seu par de olhos azuis. Mas se tem algo que aquece o meu coração é saber que conseguimos construir uma história bonita, delicada, cheia de amor e de risos. Eu nunca levei muito a sério o seu jeitão que muitos consideravam ”seco”. Balela! Sempre soube que dentro da senhora havia muito amor. Um amor que eu conheci. E que permanecerá vivo toda vez que meus olhos avistarem o seu Zé Vermelho ou o seu Neném. O amor vive, vó. Porque a senhora sempre viverá!

5 de agosto:
§  Esta data concentra a saudade de uma vida: há 30 anos a vó Cacilda desencarnava. Foi quando soube que ela virou luz!
§  Daqui a alguns dias a vó Deolinda completará mais um aniversário. Como toda família nordestina que se preze, há controvérsias sobre a idade exata dela. Alguns, como o meu pai, defendem que ela nasceu em 1918, ano que consta em seus documentos e, portanto, faz jus aos seus quase 99 anos. Outros, entretanto, acreditam que sendo ela de 1915, já é uma centenária. Eu, se bem a conheço, aposto que ela ficaria com a primeira versão na qual ela se torna mais “moça”. Vida longa, vó Deolinda! Sua nova aventura acaba de começar! Não se esqueça de mim, tá?! Pois eu jamais esquecerei esse seu par de olhos azuis...


Luciana Praxedes Ventura

Santos, 25 de julho de 2017


(Amanhã, 26 de julho, é celebrado o Dia da Avó. Como eu não acredito em coincidências...)

sexta-feira, abril 21, 2017

Facebook = ego trip

Foto: Keiny Andrade, da revista IstoÉ

No Facebook todo mundo é lindo, sorridente, feliz, saudável, ryco. Isso não me incomodava, até que começaram a pulular na minha timeline as tais listas de 9 verdades e 1 mentira. Esse fenômeno me levou a refletir sobre a era do EGO que estamos vivendo e que está demorando para passar pra trás....

Eu acredito que o mundo precisa urgentemente de pessoas que não olhem apenas para seus próprios (e lindos) umbigos sarados e bronzeados de sol e bem alimentados de produtos veganos, politicamente corretos. É enjoativo ver esse tipo de movimento no mundo, e o Facebook apenas reflete essa neurose coletiva.

O meu blog não deixa de ser uma ego trip, eu sei. Mas sei lá, eu to aqui quietinha no meu canto, pouca gente se dá ao trabalho de ler textos longos e eu encaro o meu blog como aquele meu diário de chavinha dos anos 70.

Não culpo as pessoas individualmente, porque acho todo mundo legal, quem posta e quem não posta esse tipo de coisa. Não se trata de encontrar culpados. Mas de refletir se, de verdade, isso serve para alguma coisa.

Pensando bem, até que serve, vai. Serve para o autoconhecimento. E o autoconhecimento é algo bom, positivo. Tomara mesmo que as pessoas se conheçam e saibam identificar quais escolhas devem fazer vida afora.

E uma escolha importante é: o que vou fazer com o meu tempo?

Eu tenho passado bem menos tempo no Facebook. Tirei o aplicativo do celular, o que foi ótimo. Não ficam aqueles círculos vermelhinhos com números me atrapalhando o tempo todo. Ainda não consegui bani-lo totalmente da minha vida. E nem farei isso. Mas é preciso escolher o que fazer com os minutos que escoam entre os nossos dedos.

Eu, por exemplo, estou dedicando grande parte do meu tempo a dois grandes projetos, atualmente:

1) Coletivo de Conteúdo - minha grande motivação e acredito mesmo ser a razão da minha existência no Planeta, profissionalmente falando. Porque pessoalmente, já deixei meus filhos e minha neta, então, missão cumprida.

2) Projeto Portugal - sim, nós vamos embora. Pode ser seis meses, um ano, dois meses, 10 anos. Vamos experimentar como é morar fora do Brasil. Para quem nunca mudou nem de cidade, é algo importante de se fazer com quase 60.

E dei voltas e voltas e acabei caindo na minha ego trip particular. Veja que bacana ficou a nossa foto e a entrevista que demos para a Revista IstoÉ desta semana: "Descobrimento às avessas".


quinta-feira, abril 06, 2017

Mais um presente aos leitores!


Ganhei mais um belo texto da minha querida amiga Luciana Praxedes. exclusivo aqui para o Consulta. Aproveite!

Sobre o tempo que devemos ter

O relógio é um dos seus amigos mais íntimos. Ela precisa acordar na hora certa, sair de casa com precisão e correr contra o tempo. Ela tem pressa porque a vida é rápida, acelerada. O dia dela, e da maior parte das pessoas que conhece, é formado por etapas e atividades que devem ser concluídas com sucesso num determinado período de tempo.

Mas foi num dia, como outro qualquer, que tanta pressa passou a não ter importância. O tempo parou por alguns minutos quando ela descobriu que a vida é efêmera, quase um sopro. Naquele café, enquanto sua amiga contava sobre o diagnóstico do médico, tudo voltou a ganhar a proporção que merece ter. Nem mais e nem menos. Diante do desconhecido e na tristeza da notícia, o relógio da moça travou no momento presente. Na conversa, na dor da sua amiga.

A amiga ficará bem. Tem que ficar. Não é uma dessas coisas que se entrega para a força do destino ou do acaso. Trata-se simplesmente de uma constatação: sim, a amiga irá superar este desafio com graça, amor e rodeada de pessoas com tempo. Tempo para estar ao lado dela, para mimá-la, para conversar e planejar as férias europeias que há anos tentam coordenar. O tempo, ao contrário da pressa, requer disponibilidade, querer. E elas querem.

Com os acontecimentos recentes, ela se deu conta que perder um amigo ultrapassa o fim da vida como conhecemos. A gente não perde as pessoas para a inevitável morte. Também perdemos amigos vivos. E perder alguém querido quando se tem a chance de revê-lo, de tocá-lo, é imensamente mais triste porque decorre de uma perda consentida. A morte da alma, a morte do vínculo, é ainda mais dolorida porque depende apenas de nós. Depende da nossa inércia, da falta de tempo. Esta dor não se aplica a elas, mas o caso a fez lembrar no tanto de pessoas que foram esquecidas no meio da jornada por conta do relógio e dos compromissos assumidos para toda a eternidade.


Aquele diagnóstico trouxe proporção para a vida. Ela não perdeu ou perderá uma amiga. Ainda terá as conversas madrugadas a dentro, as compras no shopping, o dia de comer tranqueira e um futuro repleto de momentos felizes e infelizes. Juntas, ela e a amiga olharão para trás com a sensação de que estavam ali, uma ao lado da outra. Não cederam a vida ao tempo voraz e implacável. Construíram uma vida que ainda se mantém viva. Dentro e fora delas.

segunda-feira, março 13, 2017

La siesta


Eu estava trabalhando com horário e tudo... Naquela época, o que eu mais desejava, depois do almoço, eram 15 minutinhos pra deitar e descansar. Sria um lugar com redes, natureza, e também salinhas fechadas. Pensei até na logomarca da empresa, que se chamaria La Siesta: um mexicano com chapelão, sentado abraçado nas pernas, cochilando. Mas é claro que não fiz nada de concreto. Tenho várias desculpas... a principal: falta de $$ para investir.

Daí, meu filho me chama hoje pra ver uma matéria que estava passando no Jornal Hoje. Lá estava a minha ideia: uma empresa chamada Cochilo. Bacana!

Hoje à tarde, descobri o blog de uma jornalista que está participando do Coletivo de Conteúdo.

No post que li, havia um vídeo com a fala de uma moça chamada Mel Robbins, no TEDx de São Francisco, sobre "Como parar de se ferrar", que tem a ver com a situação que eu descrevi. Quantas ideias não deixamos passar, por, principalmente, muita preguiça de sair da zona de conforto, né??

Amanhã, como ela recomenda, vou me levantar meia hora mais cedo.

E vamo que vamo.

quinta-feira, março 09, 2017

Sessão da tarde


Quando eu trabalhava fora, uma das minhas maiores fantasias e sonhos de consumo era imaginar como seria bom ver a sessão da tarde em casa, refestelada no sofá. Bom, eu saí do meu último emprego em 2015 e nunca tinha me dado esse direito. Porque ao mesmo tempo que me parecia uma coisa muito legal, que tem a ver com o ócio criativo e coisa e tal, também representava pra mim o símbolo da preguiça, o estereótipo do pior lado daquela aposentadoria vazia e "de pijamas" de antigamente.

Mas hoje (me invejem, pessoas que trabalham com horário) eu me larguei na minha poltrona preferida e vi o clássico dos clássicos "A Lagoa Azul" na sessão da tarde, sem medo de ser feliz. É um dos mais reprisados na sessão da tarde e não pode existir diversão mais inocente e descomprometida do que essa. O filme é de 1980 e eu nunca tinha visto, acredita??

Sempre dei ouvidos às críticas que falam que é fantasioso, fake, bobinho, etc. etc, etc... Mas hoje, joguei todas essas análises para o alto e vi o filme todinho, do começo ao fim. Ele é mesmo bobinho, falso, etc... Mas como é lindo aquele casal! Como é linda aquela suposta ilha paradisíaca! Como é fantástica a vida que eles levam ali! Comida farta, sol, mar, o Richard e aquela sua habilidade inacreditável de construir um palacete em plena praia... tudo mais que perfeito.

Eu também gosto de assistir aquele programa Largados e Pelados e o contraste não pode ser mais absoluto. Acho ambos um exagero. Tanto o filminho água com açúcar dos anos 80 quanto o "reality" show de hoje.

Tudo isso me leva a crer que boa mesmo é a minha vida de semi-aposentada de hoje: sem dinheiro na conta, mas esbanjando qualidade de vida. Posso até me dar ao luxo de ver a sessão da tarde de vez em quando!

sábado, março 04, 2017

Meu filho primogênito


Um homem: é emocionante quando a gente constata que o filho cresceu e está prestes a completar 34 anos. Ele me tornou mãe e me deu o meu melhor papel nesta vida, o de mãe. Dar à luz, criar uma vida, isso é fantástico. Se eu não tivesse feito mais nada nesta vida, apenas o fato de ter gerado o meu filho já bastaria para dar significado à minha existência.

Meu bebê, meu menino, meu filho, meu arquiteto número 2 (o pai dele é o número 1). O tempo foi passando e me revelando este homem que eu tenho aqui na minha convivência: um homem sensível, que tem os valores mais preciosos que se pode querer, um homem do bem, um pai incrível e amado, um filho dedicado e amoroso, um irmão com quem se pode contar, um neto carinhoso e atencioso.

Tenho muito orgulho desse meu lindo menino. Lembro dos seus cachinhos dourados, do seu sorriso (não muito constante, mas sempre sincero), do seu primeiro par de óculos de armação vermelha, do sapato de verniz preto, do skate que chegou com toda a parafernália correspondente (joelheira, cotoveleira, capacete). Ele ainda era muito pequeno para ganhar skate. Mas ganhou assim mesmo.

Entendo porque as mães se recusam a enxergar os filhos como homens feitos. Elas sempre se recordam daquele bebê indefeso que dependia delas para tudo. Mas o exercício de enxergar este homem crescido é necessário e saudável. Hoje, na véspera do aniversário dele de 34 anos, me descubro emocionada em registrar a sua trajetória nesta vida. Ele prefere ter poucos e excelentes amigos. Não é de muita conversa. Mas não duvido um pingo do seu bom caráter e do seu amor pela vida e pelas pessoas mais próximas. Me sinto privilegiada e agradeço por poder conviver com ele quase todos os dias e já sinto saudades desse tempo.

Desejo zilhões de felicidades para ele, que ele realize todos os seus desejos e sonhos. Vibro com o seu sucesso e quero que ele seja exageradamente feliz ao lado de quem ele ama. Eu e meu colo estaremos sempre prontos a recebê-lo, toda vez que ele precisar.

I love you, Tom! 

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Falta



Os leitores do "Consulta" são brindados hoje com mais um texto sensível e delicado da minha querida e talentosa amiga Luciana Praxedes. Delicie-se! 

Ela segue muito bem com a vida quando ele não está. Não morre, não faz greve de fome, não permanece letárgica no sofá. Ela se empenha no trabalho e quando chega o domingo, ela ainda está viva. Tem praia, tem cinema, tem Netflix. Mas surge um sentimento de ausência, uns buracos no meio dos dias. É porque falta o cheiro dele, falta o som do sorriso dele. Falta... Ainda assim ela não morre e continua em atividade, superando os “perrengues” da vida. Só que intimamente percebe: ela se ajeita melhor perto dele.

Mesmo quando ele não está ela continua distribuindo sorrisos e rindo de si mesma. E ri dos outros também. A vida continua sendo boa ainda que ele não esteja por perto. Ela continua a ler os mesmos jornais e se esforça para não faltar na academia. Ela não se arrasta pelos cantos. Sente fome, tem sede e adora achar motivo para ficar à toa naquele bar. Mas como seria bom ter a companhia dele, dando conta da garrafa de vinho e segurando a mão dela. Ter o ombro dele para se encostar.

Ela não enfraquece, não esmorece quando ele não está. Permanece fazendo planos, economizando grana para a viagem de volta ao mundo. Só que tudo isso se dissipa se ele surge no horizonte. As pernas dela ficam bambas, o coração entra em descompaso, as mãos formigam, o rosto parece incendiar e as palavras desaparecem. A vida ganha mais sentido quando ele está. Porque é do lado dela que ele deveria permanecer. Ficar.

Ele nunca esteve ou fez parte dos planos dela, nunca foi uma meta a ser perseguida, mas o inesperado o trouxe para ela. E entre trancos e barrancos eles construíram algo. Ela continua atenta para não invadir o espaço alheio e para não cobrar o que ele não pode oferecer. Não faz perguntas para respostas que ele não tem. Então ela segue sua jornada, com algum medo e carregada de dúvidas. Muitas vezes com a sensação de se equilibrar na corda bamba. Mas bem ou mal ela decidiu deixar ele entrar. Ela não quis resistir e abriu todas as portas e escancarou as janelas. Percebeu que seria melhor colecionar memórias e lembranças ao invés de não tê-las.

Ela não culpa ele ou ninguém mais por este ou aquele desfecho. Ela apenas sente falta dele. Muita falta. Mas ao mesmo tempo sabe que é preciso varrer as folhas mortas, acalmar as lágrimas e não esperar por nenhuma justificativa ou gesto romântico de amor. Ela aprendeu a aceitar. Compreendeu que sente falta de tudo que emana dele. E terá que viver assim por muito tempo. Mas isso não a impede de dar passos largos em direção ao futuro. Ela sabe que irá continuar sentindo a ausência dele. Dos sonhos que poderiam ter concretizado juntos. Ficará o silêncio. Aquele buraco.


Luciana Praxedes

Santos, 15 de fevereiro de 2017

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Olho mágico 2


O texto da minha linda colaboradora Luciana Praxedes publicado ontem me inspirou a contar o outro lado da história. E o texto que saiu foi este:

(ou... Por que a grama do vizinho é sempre mais verde??) 

A rotina do café da manhã dela era preguiçosa. Ele sempre acordava antes. Como ela precisava tomar o remédio do hipotireoidismo, esperava meia hora antes de comer. Nesse meio tempo, ele se adiantava e deixava tudo pronto. Era uma maneira de “se mostrar”: “olha que ótimo marido eu sou! Até deixo o café da manhã dela preparado todas as manhãs”. Era o que ele sempre repetia para os amigos do clube. Ela estava cansada daquele mimo todo. Por exemplo: ela preferia leite desnatado, mas ele insistia que o integral era melhor para a saúde. E ai dela se reclamasse. Nesses casos, ele nunca discutia. Apenas emburrava e se fechava em seu mundinho, onde ninguém tinha permissão de entrar. Ela simplesmente não suportava o silêncio dele.

Feliz mesmo era a moça solteira do apartamento ao lado, que ela sempre observava pelo olho mágico. Saia toda produzida e perfumada para o trabalho, todas as manhãs. Certamente deveria ter um cargo bem alto, pois ela sabia reconhecer suas bolsas de grife e seus óculos de sol que com certeza não vinham de um camelô... E na casa dela não tinha aquele silêncio mortal. Lá sempre rolava uma música tocando baixinho. Um jazz, uma bossa nova, uma MPB, tudo de bom gosto. O marido dela não curtia música. Preferia ver notícias ou esportes na TV.

Isso sem falar no carinho que aquele gatinho fofo tinha pela vizinha. Ela sempre amou os animais de estimação. Sobretudo os gatos. Mas o marido dizia que eram animais traiçoeiros e ainda por cima tinha alergia. Ou seja, ela jamais pode ter um gatinho no apartamento. A vizinha, no entanto, tinha sempre a companhia daquele animalzinho fofo, que nunca reclamava de nada, fazia as necessidades no lugar certo e estava sempre pronto a um afago, um cafuné.

Todos os dias, depois do café da manhã, o marido a pegava pela mão e levava para a mesa do escritório, onde tinham que conferir uma a uma todas as notas fiscais do dia anterior. Ela era obrigada a justificar cada centavo gasto e era o momento do dia de que ela menos gostava. Era uma verdadeira tortura. O marido, Capricórnio com ascendente em Touro, não aceitava nenhum gasto que não fosse planejado antes. Ela ainda tinha bem vivo na memória aquele scapin vermelho, que ela decidiu comprar num impulso, quando viu na liquidação, apostando que o marido ia achar sexy. Não teve choro nem vela. Ela precisou devolver com uma desculpa esfarrapada qualquer, e pegar o dinheiro de volta.

Mas o que mais a irritava era aquela xícara lilás, que era para ter sido da mãe dele. Tinha sido comprada por ele em Paris, para dar de presente à sogra, quando ainda estavam bem de vida. Porém, ao chegarem ao Brasil, a mãe dele teve um infarto fulminante e morreu. Ele achou por bem dar à esposa a tal caneca lilás. Se ela pudesse escolher, não usaria aquela triste xícara. Mas discordar do marido era ter de conviver com o homem emburrado. Então, ela achava melhor aquiescer.

Feliz era a vizinha. Que podia escolher a xícara que quisesse, sair e voltar no horário que bem entendesse, ouvir a música que escolhesse, na hora em que estivesse a fim. Sim... a liberdade não tem preço, pensava ela, enquanto lavava a louça e lembrava daquele lindo scarpin vermelho... 


quinta-feira, janeiro 12, 2017

Olho mágico


Mais uma vez tenho a honra de publicar o primeiro texto de 2017, de autoria inspirada da minha querida amiga Luciana Praxedes. 

Por aquele pequeno orifício, ela passou a observar uma vida que não era a dela, mas que desejava imensamente que fosse. A dinâmica daquele casal, meramente comum, igual a tantos outros, era a declaração mais latente de que a felicidade acontece em gestos singelos ou no silêncio de um olhar. Não há palavras, sentenças ou conversas matinais. Apenas uma rotina permeada pelo amor, pela reciprocidade, pelo bem-querer.

Espreitar a dinâmica daquele casal passou a ser o esporte favorito daquela mulher balzaquiana, uma típica leonina com ascendente em Escorpião e lua em Câncer. Ela prestava atenção aos detalhes que a pressa, a  confusão do cotidiano, insistem em camuflar. Todos os dias aquele moço alto de cabelos levemente grisalhos acordava mais cedo para preparar o café ao mesmo tempo em que folheava a página de Esportes de um jornal qualquer. Era uma ação cotidiana, quase automática, mas que revelava uma gentiliza sutil: o café pronto, quentinho, era despejado na xícara lilás, acompanhada de duas fatias de pão integral com manteiga sem sal. E uma fruta! Sim, a fruta dela delicadamente cortada em cubinhos simétricos.

Pontualmente às 7h12 a dona deste desjejum aproximava-se, sentava na cadeira posicionada na cabeceira da mesa e lançava um olhar preguiçoso para ele, que interpretava este gesto como um obrigada. Ao devolver o olhar ele também respondia: de nada, coma tudo. Esta cena trivial enchia o coração da observadora, que pulava o café da manhã por preguiça de prepará-lo. Morar sozinha tem lá suas vantagens, mas a principal desvantagem é não ter ninguém para fazer o seu café da manhã. Nem sempre foi assim, mas ao perceber que preferia um amor amigo ao sexo quente eliminou o desjejum dos seus hábitos alimentares.

O homem enche mais uma xícara de café e senta-se ao lado dela. Coloca sua mão na coxa direita da moça e morde o pão pulmann besuntado de geléia de amora. Ela retribui o carinho e repousa sua mão em cima da dele. Eles se olham. Não emitem nenhum som, nenhuma palavra. Não que fossem necessárias. Neste momento, uma lágrima escorre pelo rosto daquela que permanecia à espreita. Desejou, com toda a força do seu ser, que alguém segurasse em sua mão, que alguém se importasse. Leonel, seu gato siamês, ao perceber que ela chorava, enrosca-se em suas pernas para provar que ela não está sozinha. Tem ele.

O casal, agora de mãos dadas, levanta-se em direção ao quarto. Ao se afastarem da mulher que tudo vê deixam um rastro de dor por tudo aquilo que aconteceu e, especialmente, pelo o que não aconteceu. Fora do alcance dos seus olhos, aquele casal faz ela recordar de um verso sobre o amor. Ou seria sobre a ausência? Não importa. O amor mora do outro lado, no apartamento vizinho, na cozinha, no café quente na xícara lilás.



Luciana Praxedes

Santos, 11 de janeiro de 2017.