sexta-feira, março 16, 2007

Oh! Dúvida cruel

Quem não tem dúvidas, nessa vida? Não é mesmo? De vez em quando recebo umas consultas sentimentais. Não posso deixá-las sem resposta, é claro. Então, vou transcrever um diálogo via e-mail aqui, preservando a identidade da minha consulente. A consulta dela é quase uma poesia. Fiquei em dúvida se eu precisava responder uma a uma das suas colocações. Mas achei que não. Porque ele falava de cada particular e eu respondi no geral. A vida da gente é feita de lados, aspectos, setores e a gente quer a felicidade em todos eles, se possível, AGORA.
Aos poucos, a gent aprende que mais importante do que chegar lá é caminhas direito, como eu digo logo mais.

Consulta
Eis meu desabafo. Sei que estás muito ocupada, mas acho que vai poder me ajudar.
Acho que tou em crise da mulher de Nova ou na crise dos 30, tou perto de descobrir que "ou se tem chuva ou se tem sol".

Quero ter filho logo (realização pessoal e menos manha da enteada), mas estou tendo dificuldade de engravidar, estou indo a um especialista.

Quero ter a casa arrumada e pra isso tenho empregada, mas como todas as mulheres sabem (e os homens não) mesmo assim tenho coisas a fazer em casa.

Tenho que ir ao mercado semanalmente, marido vai as vezes, mas nunca acerta comprar minhas coisinhas, shampoo, por exemplo.

Tenho que ir ao salão semanalmente, mas vou de 15 em 15, não morro, mas me sinto feia, minha profissão exige salto alto, cabelo liso, unhas feitas e paletó.

Tenho que fazer atividade física, pra ficar uma velhinha saudável.

Tenho que emagrecer, pra ser sexy e facilitar a possibilidade de gravidez. E o chopp com o marido?

Tenho que dar atenção a meus pais, enteada, marido e raros amigos.

Tenho que estudar, quero ser mais inteligente, mas tem coisa que simplesmente não entra em minha cabeça...

Quero que meu tempo renda mais, mas tb quero dormir muiiiiiiito (adoro) e ter lazer.

Quero ser reconhecida na minha profissão, mas os prazos, monografias (1 MBA e 1 Pós-graduação concomitantemente) e reuniões consomem todo o meu dia, sem que eu tenha tempo de pensar em marketing pessoal.

Quero fazer ioga, voltar a inglês, fazer terapia pra me entender, ser mais calma.

Não quero ser modelo pra ninguém, mas quero ser imitada.

Quero um emprego melhor, não que o meu seja ruim, só que com ele não terei o dinheiro que meus pais e sogros tem (pra meu pai isso é péssimo, serei pior que ele), não posso ser sócia do clube, comprar paletós com caimento perfeito,, mas gosto do meu emprego, é desafiador, apesar de ser passível de privatização e eu não ter possibilidade de ascensão vertical (tb devido a minha inteligência e marketing - ausentes).

Acho que quero ser juíza do trabalho, mas direito do trabalho é tipo como um direito menor, pros burros, mas eu num consigo entender tributário... Poderia ser procuradora do trabalho, o salário é melhor, mas é tão repetitivo... Atentei e fiquei em crise (marido me chamou à realidade), como posso ser tantas coisas ao mesmo tempo? Sou tão cobrada, principalmente em relação a um emprego melhor; meus pais acham que me traria $ e status, os que vêem meu potencial, crêem que me traria status, eu queria $. Mas, eu cansei de estudar, já estudei tanto (e olha que eu amava estudar) e nada... já não sei se sou capaz de tanto esforço... Tou tão triste comigo mesma, sei que meu potencial é maior, mas me perco no dia-a-dia. A vida tem tantos lados.
Quanto tempo demandaria de dedicação até eu conseguir? Marido aceitaria minha ausência? Ele trabalha fins de semana e até tarde, mas e eu ? Não poderia? Quem conversaria com a mãe que morre de saudades e até ficou doente por isso? Quem cuidaria da casa? Quem tentaria educar a enteada, ajudaria no dever de casa e ouvia as conversas sobre a escola? A empregada quer ir embora às 18h, o marido tem aula até as 22h.

Por que nasci mulher?

Por que não estudei mais, quando podia?

Quem tem que abrir mão das coisas?

Tou perdida e, o pior é que barco que não sabe pra onde vai, a maré leva...

Resposta
Bom vou tentar responder.

Primeiro, obrigada por ter aberto o seu coração comigo!!

Sobre ter filho: tem que ver o que a Medicina diz, mas tem que confiar, sobretudo, em Deus, mesmo, que é Ele que manda!!

Sobre ser dona-de-casa: as feministas falavam na tal jornada dupla de trabalho, e ela ainda dura
até hj.

Deixa o marido ir ao super, mas não queira que ele compre o seu xampu. Melhor comprar só um xampu do que um super inteiro!!

Quanto aos outros itens, é mesmo muita coisa, tudo ao mesmo tempo agora, como parece que é o lema da nossa época.

Mas tenta fazer uma coisa de cada vez e o "caminho do meio", que Buda apontou, há um tempão atrás, o caminho do equilíbrio.

Mas tem umas perguntinhas que vc faz que eu não vou nem tentar responder, né?! Exemplo: por que nasci mulher?

Bom, aí já não sei, mas com certeza deve ter um motivo. Eu, que acredito em reencarnação, acho que nós, os seres humanos, temos que viver as duas experiências. Comparar a dor e a delícia de uma e de outra. Agora é a vez de ser mulher, em sua plenitude, com todos os conflitos e enigmas que só a gente pode mesmo resolver.

E nada como um dia depois do outro, um passo no caminho de cada vez, sabe o slogan daquele uísque? Keep walking. Pois é. O caminho e seus percalços é que nos fazem crescer e progredir.

Tenta fazer o seu melhor, que é a única coisa que podemos fazer, aos 14, aos 20, aos 30, aos 40 ou aos 50, em todas as idades!!

Ah! e tem o lado espiritual, que vc não citou. Mas precisa tentar encaixar em algum momento tb, qualquer que seja a religião escolhida!

Respondi????????????

domingo, março 11, 2007

Eu caí no conto da caixa de lápis de cera

Eu era feliz com o blog antigo e sabia.
Estou muito triste e infeliz e decepcionada com esse novo layout.
Sumiram todas as minhas coisas de que eu gostava aqui do lado, muita gente reclama que não consegue mais entrar aqui no Consulta e eu fico irritada querendo consertar coisas, sem nenhum sucesso. Nem um e-mail de ajuda consegui encontrar.
Estou tão decepcionada!!!
Depois tem uma janela infame que abre, quando meu blog abre. Perdi o adsense, que tinha me dado tanto trabalho colocar no blog antigo. Ou seja, me enchi. Paciência tem limite.
Então, vou escrever só lá no Efeito Pimenta, daqui pra frente.
Adeus! Por favor, quem tem link pra cá, deleta. Tchau. Fui.

sexta-feira, março 09, 2007

Tomás

Poucos de vocês tiveram a chance de ver um filme chamado "Jonas, que terá 25 anos no ano 2000". Eu vi. Gostei muito. Então, o Tomás ia se chamar Jonas. Estava decidido. Isso se fosse menino, porque eu não quis saber o sexo, quis deixar para descobrir isso na hora.
- É um menino! - falaram, quando ele nasceu, depois de um trabalho de parto pra lá de complicado. Devia estar quentinho e gostoso lá na minha barriga e quem diz que ele queria sair de lá?
Mas nasceu. Num sábado, dia 5 de março de 1983. Nasceu meu primeiro filho. Eu, aos 24 anos, não poderia imaginar como seria minha vida dali pra frente.
- Mas ele não tem cara de Jonas! Vai ser Tomás, daí o apelido vai ser Tom.
Pronto. Nome escolhido.
Domingo chuvoso. O programa de toooooodo mundo foi ir até o Santa Catarina conhecer o bebê.
Mas ele teve icterícia e eu tive alta e ele não. Passei o tempo toooooooodo no berçário, tentando dar de mamar ao garoto. Lindo, saudável, gordinho, forte, um meninão.
Eu via aqueles bebês pequenininhos, que ficavam em incubadoras, e agradecia muito a Deus pelo meu filho saudável.
Resumindo, tive que voltar pra casa, tarde da noite, e deixá-lo ali, tomando banho de luz. Com o coração partido, fui.
Cheguei na vila (a gente morava em uma vila), e vi um monte de bandeirinhas. Mas era março... o que aquelas bandeirinhas faziam ali? No meio da vila, um cartaz: Benvindo, Tomás.
Dá pra imaginar o quanto chorei? Ele não tava ali comigo. Abracei as vizinhas, e chorei, chorei. Não preguei os olhos nquela noite.
Saí correndo pro hospital, olhei pelo vidro e vi um bebê ali, com os olhos vendados e peladinho, tomando banho de luz, bem onde estava o Tom na noite anterior. Mas não era o Tom, ele tava "de alta". Minha alegria foi aos píncaros. Agarrei a minha coisa mais preciosa desse mundo, entrei no banco de trás do fusquinha e rumei pra vila com meu pacotinho embrulhadinho pra casa.
Foi assim quando ele nasceu.
Agora, fez 24 anos e vai ser pai, com a mesma idade com que eu fui mãe.
Tom, seja muito, muito, muito feliz.
Porque o amor que nasceu naquele dia, quando vi a sua carinha pela primeira vez, só aumentou nesses anos todos.
Agora você vai descobrir como é ser pai. Sua vida vai dar um giro de 360 graus e ainda assim, você será pra mim, pra sempre, o mesmo menininho lindo, de cabelos cacheados que conquistou o meu coração por toda a eternidade.
Te amo.

sábado, março 03, 2007

Ônibus




Senta, que lá vem história.

Toda pessoa que tem alma de escritor devia andar de ônibus, uns tempos. O desfile de personagens é uma coisa fantástica! Tem desde o executivo ouvindo seu IPod e lendo uma revista em inglês, até a empregada doméstica, com o seu perfume barato. Pelancas caindo pra fora de calças apertadas, blusas agarradas teimando em subir. E quando você senta no banco que fica do lado do corredor, prepare-se para levar pisões no pé, bolsadas na cara, barrigadas no ombro e coisas assim. Eu pareço ser legalzinha, mas quando uma pessoa invade meu "espaço pessoal", não gosto nem um pouco. E, ao andar de ônibus, pode esquecer do seu "espaço pessoal"...

Ontem não tinha lugar pra sentar. Fique de pé lá no fundão, perto de um cano vertical, onde me segurei. Sabe o tal espaço pessoal? Então, uma menina decidiu segurar no mesmo cano que eu e colocou sua mão bem perto do meu nariz. Minha primeira reação seria dar uma mordida, pra tirar a mão dela dali. Mas sou civilizada e nunca me esqueci que fiquei de castigo porque mordi uma menina na escola quando eu tinha seis anos. Uma hora, ela tirou a mão dali pra coçar o nariz. Era a minha chance! fui indo mais pra frente, me agarrando mais ainda ao tal cano, para que não tivesse jeito de colocar qualquer coisa ali, naquele espaço que era MEU!

Pronto, chegou seu ponto e você gostaria de descer. Sim, mas para isso, há uma corrida de obstáculos a vencer. Tem sempre aquelas pessoas que resolvem se instalar bem na saída do ônibus, agarrando aquele ferro como se daquilo ali dependesse a sua vida. E o pior é que depende, mesmo. Os motoristas, a grande maioria, dirige como se estivesse dirigindo um caminhão cheio de caixas. Aceleram demais, brecam de repente, fazem curvas de uma maneira que parece que queriam ser corredores de Fórmula 1. Desimportantes e irrelevantes, as pessoas ficam chacoalhando de lá pra cá, umas caindo por cima das outras.

Tem o mocinho aproveitador, que encosta demais na moça, ainda que o ônibus não esteja tão cheio assim. Tem de tudo um pouco. Tem o garoto que senta no banco dos idosos e finge dormir pra não ter que levantar para aquela senhora gordinha, carregada de pacotes e sacolas. Tem avó com neto (muitas). Tem casais de velhinhos que, ao invés de escolherem um horário em que o ônibus esteja mais vazio, preferem viajar no horário do rush, mesmo, que é mais divertido. Eu acho que eles sempre estão certos. Podem fazer o que bem entenderem. São uns fofos. E demora. Demora, demora. Pára no ponto e as pessoas vão entrando. Ninguém vai pro lado esquerdo, todos vão pro lado direito e o ônibus não pode sair do ponto enquanto todas aquelas pessoas não passam seu bilhete único. Ai, que cansativo. Mas o que importa é que vou ser contratada e vou ter carteira assinada. Por isso, nada disso importa. E até é tudo muito engraçado. Pelo menos, tenho material para quando eu for virar escritora. :-)

sexta-feira, março 02, 2007

Nasce uma mãe


“Toda escolha, uma renuncia". já dizia o provérbio. Mas como lidar com um fato que não foi escolha sua? Uma gravidez, aos 23 anos, não foi escolha, foi acidente. Passei a vida toda planejando ser independente e livre, planos esses em que eu era o centro de minha própria vida. Minha liberdade, minha faculdade, meus amigos, minha individualidade, tantas coisas "minhas" e agora "nossas" e daqui a pouco "dela". Uma filha. Ela será o centro da minha vida. Minhas escolhas serão para ela, pensando nela, sempre ela, ela... Uma filha logicamente trará alegrias e muitas. Mas e as renúncias? Infinitas, será? Para sempre? Será que viverei com aquele "se" cravado na consciência? Será que terei tempo de lembrar de mim? E, se lembrar, não me sentirei culpada por estar pensando em mim? Serei eu a mesma de antes? Muitos sentimentos, muitas mudanças e a cada chutinho, uma única certeza, eu não estava preparada para ser mãe, mas alguém já estava preparada para ser minha filha.


(Sim, o texto é da minha querida futura mamãe Rafaela, a amada do meu filho - e da família inteira, por tabela! O texto é lindo e comovente, pedi autorização pra publicar aqui. Uma futura mamãe tem mesmo muitas, muitas dúvidas. Mas só vivendo pra saber como será. Por um lado, todos nós somos "sujeitos" da nossa própria vida. Mas por outro, certas coisas simplesmente acontecem, quer a gente queira, ou tenha planejado, quer não. E assim a gente vai vivendo, construindo os nossos diferentes papéis: bebê, criança, estudante, filho/a, profissional, mas depois a gente vira mãe/pai e até sogro/sogra... e até vô/vó. É uma surpresa atrás da outra... - ah, e por mais estranho que pareça, pra quem vem aqui de vez em quando, tô lendo Bukowski - e adorando).