domingo, fevereiro 28, 2016

Lucas



O Consulta Sentimental tem a enorme honra de publicar (com um atraso imperdoável!) o texto da minha mais querida colaboradora Luciana Praxedes.

Aproveite!

Lucas

─ “Você irá chorar quando o médico chamar seu nome?”
─ “Acho que não, nem deve doer, acho eu”.
Em meio ao frenesi da recepção do hospital, um “jovem” de aparentemente quatro anos começa uma prosa com a moça de macacão estampado. Acabado o Carnaval, foliões e foliãs se amontoam entre bancos e poltronas a espera do doutor.
O pequenino, meio ressabiado com seu encontro de logo mais, dispara a falar:
─”Qual é o seu nome?”
─ “Luciana”, respondo.
─ “Nossaaaaa, será que a gente é parente? Meu nome é Lucas. Nosso nome é muito igual, né?”
Abro um sorriso e engatamos uma conversa sobre remédios, injeções e os motivos que nos levam até os hospitais. Ele, acometido por uma suposta virose, precisava de cuidados. Explicou que “toda hora ia ao banheiro” e que a “mamãe” dele até sugeriu uma fralda descartável. Mas ele refutou:
─ “Eu “tô” grande e não preciso disso. Se quiser, que me leve ao “doitor”, disse com um invejável ar viril.
Mas a aparente coragem escondia, na verdade, um sentimento genuíno de pânico.
─ “Se chamarem você antes de mim, você me conta como é?”
─ “Não se preocupe, não há de ser nada. Você até está com uma carinha boa para quem está dodói”, analisei, na tentativa de animá-lo.
Entre os lamentos de dor, de reclamações sobre a espera interminável e do som frenético dos últimos repiques de samba – transmitidos na pequena TV que tentava, inutilmente, entreter os candidatos à espera de um diagnóstico – o pequeno Lucas passou a divagar sobre a vida, sobre o tal do “zica, um mosquitinho bem pequenininho que pode machucar gente grande, gente pequena e até velhinho”.
─ “Luciana Praxedes, por favor, sala 2”, anuncia um rapaz ruivo, com voz de tenor.
─ “Chegou minha vez, Lucas. Preciso ir. Você fique calmo que tudo dará certo”, falo em tom encorajador.
Eis que, repentinamente, o paciente infantil dispara com um ar confiante:
─ “Tá tranquilo, tá favorável”.
Eu esboço um sorriso sem entender ao certo o que a frase quer sugerir.
─ “Pra você também”, digo com cara de interrogação.
Ao adentrar na sala 2, o “doitor” é categórico no meu diagnóstico:
─ “É dona Luciana, não ‘tá´ nada tranquilo, não ‘tá´ nada favorável”.

A tosse, até então esquecida durante a conversa com o falante mirim, volta a dar o ar de sua graça. Olho para o médico e penso: o mundo e seus inusitados neologismos.

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