Minha amiga Luciana Praxedes, que tem o dom da escrita e já escreveu algumas vezes aqui, me "emprestou" mais um dos seus textos inspirados e "bordados" com muito amor e carinho para as suas duas avós, para eu publicar aqui no Consulta. Como todos os textos muito bem tramados e urdidos, o dela, embora fale de pessoas muito particulares, tem a capacidade de alcançar a universalidade das avós deste planeta Terra.
Parabéns, Lu! E obrigada pela honra de compartilhá-lo aqui no meu espaço internético.
ELAS
No final de
junho comecei um texto para tentar traduzir em palavras a saudade que sinto,
sentia e sempre sentirei dela, da minha avó Cacilda. A emoção não permitiu que
eu fosse capaz de concluir este desabafo, mas eis que a vida, com suas esquinas
e travessuras, praticamente me obriga a rascunhar algo. Para deixar o coração
mais leve ou apenas para repetir ao universo o que ele já sabe, divido com vocês meu sentimento.
Cacilda
Acho que sempre será impossível falar, pensar ou
escrever sobre a senhora sem deixar que algumas lágrimas me façam companhia. O
tempo passou, já são quase 30 anos que a senhora virou luz e foi brilhar do
lado de lá, mas ainda assim, vira e mexe, algum cisco entra no olho.
A gente se fala com frequência, mas rolou muita
coisa por aqui enquanto a senhora virou encantada. Eu cresci (literalmente!),
estudei (bastante, como a senhora sempre previu), me apaixonei, desapaixonei,
construí relações, fiz amigos, viajei. E lembra aquele carro cor-de-rosa que
seria nosso? Eu comprei um carro! Mas não tinha cor-de-rosa. Era preto e se
chamava Vulcão. E nos nossos quase três anos de relacionamento sério, nem um
dia sequer, ao estar dentro dele, deixei de lembrar como seria levá-la para
passear por aí.
A mãe, sua filha querida, está lindona! Continua a
figura rara de sempre, dando nó em pingo d´água. A gente ri, chora, conversa,
ri de novo, conversa mais um pouco e seguimos assim: companheiras uma da outra.
Juntas. Sempre juntas! Se a senhora ainda estivesse por aqui, certeza de que
aquele romance histórico, “Os Três Mosqueteiros”, seria reescrito numa versão
tropical, feminina, arretada e bem-humorada.
E como falar de humor sem lembrar da sua gargalhada
e do jeito que todo o seu corpinho se balançava sempre que alguém contava um
“causo” ou quando a Lucilene, minha irmã e sua outra neta, aprontava das dela?!
Se eu fechar os olhos agora, sou capaz de reproduzir em minha mente (ou seria
no meu coração?!) o som mágico que emanava da senhora.
Não posso esquecer de contar que estou cuidando deles.
Do pai e da mãe. Do jeito que a senhora faria. Mas a senhora acredita que eu
tenho fama de chata?! Precisava tê-la aqui para me defender. Eles me chamam de
general só porque eu controlo a comilança de doces ou pego no pé quando faltam
na academia... Só isso. Mas eu não estou certa, vó?!
Vó, eu sei que a senhora está sempre comigo. Por
isso preciso pedir um favor. A minha outra vó, a Deolinda, lembra-se dela?!
Então, ela também virou luz. Acho que será sua vizinha. A senhora cuida dela
pra mim? Cuida dela pra gente? Só um lembrete: nunca, em hipótese alguma,
pergunte quantos anos ela tem. Isso deixa a dona Deolinda “avexada”. É
besteira, eu sei. Ela também sabe. Mas por que criar caso, né? O que importa
mesmo é que agora o céu e o universo contam com mais duas estrelas. As
estrelinhas mais arretadas que se tem notícia na história das galáxias. Nem
posso calcular a bagunça boa que vocês duas irão aprontar. Promete uma coisa?
Quando tocar “Cintura Fina”, do Gonzagão, pensa em mim?
Deolinda
Sabe o par de olhos azuis mais lindos que eu já vi?
São os seus, vó. Sei que a sua vida acaba de mudar, mas olha só: vai dar tudo
certo. Não tenha medo, não. Já conversei com a vó Cacilda e ela irá cuidar da
senhora. Tenha nela uma amiga, alguém para estar ao seu lado quando precisar de
um colo quentinho e cheiroso.
Eu tenho dificuldade com esse negócio de despedida,
mas se teve algo bonito no seu desencarne foi perceber que o amor estava lá do
seu lado. Amor em forma de filhos, netos, cunhados, noras e amigos. Seus meninos
e sua menina estão sofrendo, cada um do seu jeito, mas todos têm a mesma
certeza: a vida nunca acabará enquanto houver amor. E teve. E tem tanto amor,
vó.
Até agora eu dou risada sozinha ao lembrar a nossa
última conversa. Eu, inconformada, querendo entender o motivo de não ter
nascido com o seu par de olhos azuis. A senhora achando graça e tentando me
consolar. E eis que o pai, todo metido, pergunta se eu, a filha do Zé Vermelho,
não sou a que mais parece com o meu avô Chico entre tantos rostos existentes na
nossa grande família. A senhora, toda compenetrada, me olha séria para avaliar
se a afirmação tem mesmo validade. E me diz: “pois é, parece mesmo com Chico.
Até o jeito todo ‘renhenhem’”. Eu devolvo: “mas o que é ‘renhenhem’, vó?”. A
senhora esclarece: “você é bagunceira como o Chico, minha filha”. E o coração
desta neta só fez explodir de tanto orgulho. Porque percebi nessa frase que
ele, o avô que a vida não me permitiu conhecer, iria ajudar a vó Cacilda a
cuidar da senhora. Não sei explicar direito, mas tive uma certeza esquisita de
que eu e a senhora, de alguma forma, estávamos nos despedindo.
Mas não fique triste, não. Ainda estamos muito
emocionados por aqui, é verdade! Mas tudo aconteceu como deveria acontecer. A
senhora não precisa olhar para trás: eu, a Jane e meus outros primos e primas
cuidaremos da sua prole. Seus meninos e a sua menina ficarão bem, vó. Pode
acreditar. Já sinto saudade das suas histórias sobre o sertão e do seu par de
olhos azuis. Mas se tem algo que aquece o meu coração é saber que conseguimos
construir uma história bonita, delicada, cheia de amor e de risos. Eu nunca
levei muito a sério o seu jeitão que muitos consideravam ”seco”. Balela! Sempre
soube que dentro da senhora havia muito amor. Um amor que eu conheci. E que
permanecerá vivo toda vez que meus olhos avistarem o seu Zé Vermelho ou o seu
Neném. O amor vive, vó. Porque a senhora sempre viverá!
5 de agosto:
§ Esta data concentra a saudade de
uma vida: há 30 anos a vó Cacilda desencarnava. Foi quando soube que ela virou
luz!
§ Daqui a alguns dias a vó Deolinda
completará mais um aniversário. Como toda família nordestina que se preze, há
controvérsias sobre a idade exata dela. Alguns, como o meu pai, defendem que
ela nasceu em 1918, ano que consta em seus documentos e, portanto, faz jus aos
seus quase 99 anos. Outros, entretanto, acreditam que sendo ela de 1915, já é
uma centenária. Eu, se bem a conheço, aposto que ela ficaria com a primeira
versão na qual ela se torna mais “moça”. Vida longa, vó Deolinda! Sua nova aventura
acaba de começar! Não se esqueça de mim, tá?! Pois eu jamais esquecerei esse
seu par de olhos azuis...
Luciana Praxedes Ventura
Santos, 25 de
julho de 2017
(Amanhã, 26 de julho, é celebrado o Dia da Avó.
Como eu não acredito em coincidências...)