quinta-feira, março 11, 2004

Saudades, palavra que só existe em português
Recebi um e-mail hoje da Delly que eu adorei. Tudo a ver com o meu blog. Diz que é do Miguel Falabella, mas não tenho certeza, sabe como são esses e-mails que ficam correndo pela net, né? Parece que o Luís Fernando Veríssimo é autor de tudo quanto é texto... Eu recebi um e-mail um dia desmentindo que o texto do e-mail anterior fosse daquele autor... Sei lá. Em todo caso, o texto é muito bonito e mando aqui:

"Em alguma outra vida , devemos ter feito algo de muito grave para sentirmos tanta saudade... Trancar o dedo numa porta dói. Bater o queixo no chão dói.Torcer o tornozelo dói. Um tapa , um soco, um pontapé doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.

Mas o que mais dói é saudade. Saudade do irmão que mora longe. Saudade da cachoeira da infância. Saudade do gosto da fruta que não se encontra mais. Saudade do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença e até da ausência consentida... Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba ou o do outro se torna menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet e encontrar a página do diário oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Malzbier, se ela continua preferindo suco de acerola, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor, se ele continua cantando tão bem, se ela continua detestando Mc Donald's, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias...

Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ela está com outro e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz , e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso... É não saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama e ainda assim doer. Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você provavelmente está sentindo agora, depois que acabou de ler..."

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