segunda-feira, julho 05, 2010

Sob o impacto de "A Alma Imoral"


Começo a semana sob o forte impacto da fantástica peça teatral interpretada pela magnífica Clarice Niskier, "A Alma Imoral". Baseada no livro homônimo do rabino Nilton Bonder, a peça - no mínimo - faz pensar. O que é o certo e o errado? O bom, o correto? A gente muitas vezes vive a vida mergulhados que estamos em ilusões reconfortantes, que nos mantém seguros na nossa zona de conforto.

Mas será que agindo assim estamos sendo honestos com o nosso íntimo? Se a alma é imoral, no entanto, é bom e correto seguirmos os impulsos dessa nossa "alma"? O lado negro que tentamos esconder com todas as nossas forças muitas vezes vem à tona e nos assusta a nós mesmos, que não "sabíamos" que ele estava lá, escondido, procurando uma brecha para sair... Sair do lugar estreito (o útero materno). Adentrar o espaço mais amplo (o mundo). Quantas vezes esse movimento não é necesário para que sejamos honestos não com a sociedade mas com o nosso interior?...

Religião, Adão e Eva, o povo judeu atravessando o Mar Vermelho, tantas simbologias que podem ser aplicadas aqui e agora, na nossa vidinha de cada dia. Tradição x traição - o jogo de palavras também pode dar margem à reflexões igualmente importantes. Como sermos honestos se podemos estar traindo a nossa alma? Nossa, as reflexões são inúmeras, eu diria mesmo infinitas. Pois a vida de cada um de nós é infinita em possibilidades, em erros, acertos, enganos, desenganos.

Clarice é intensa, verdadeira, inteira e honesta na peça (tão bom poder usar tantos adjetivos quantos eu quiser aqui na minha praia!). Budismo, judaísmo, crenças, fé, vergonha: ela mistura tudo em um caldeirão cenográfico que surpreende e cutuca a platéia. O riso nervoso da audiência pontua algumas das suas colocações filosóficas. Algumas precisam ser ditas, reditas, para que sejam minimamente compreendidas. Mas há tantas interpretações que não tem como resumir em palavras aqui nesse meu blog.

"Na natureza não há nudez" - diz ela, nua, sentada em uma cadeira. Desnudar o corpo é também desnudar a alma. Quem de nós teria tanta coragem assim?

Mamãe foi comigo e gostou mais ou menos da peça. Mas eu não. Eu amei. Em certos momentos, umas lágrimas emocionadas até saltaram dos meus olhos, com o paralelo inevitável com a minha vida, tão banal e no entanto tão desafiante, ao mesmo tempo. Vencer idades sucessivas não nos leva necessariamente a uma sabedoria mais profunda, mas nos faz olhar para o caminho com certa complascência: afinal, fizemos o que podíamos. Tentamos sempre fazer o melhor, de acordo com o que nos parece o melhor naquele preciso momento. Não tem (mesmo) nenhum Deus barbudo nos cobrando isso ou aquilo e não devemos direcionar a nossa via com base em o que vão pensar, o que vão dizer. Precisamos ser honestos o bastante para orientarmos a nossa vida e os nossos atos de forma consciente. Afinal, é a consicência de nós mesmos que nos define como "seres humanos". E não como um cavalo ou uma serpente.

A peça é muito legal. Merece ser vista. E que cada um tire as suas próprias conclusões e aplique (ou não) na sua própria vida.

Um comentário:

  1. Silvia, o seu texto condiz exatamente com a reação que senti quando sai do teatro. Voltei depois com alguna alunos da Filosofia e voltaria quantas vezes fossem possíveis, pois a reflexão proposta pelo autor e interpretada com maestria pela Clarisse, é estimulante! Parabéns pelo texto.
    Beijo
    Rosane

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