domingo, abril 11, 2004

Feliz Páscoa
Querido papai,
Vi seu comentário no post anterior.
Obrigada por tentar me animar. Mas é que fico triste mesmo na Sexta-Feira Santa. Já faz muito tempo. Não sei se foi mesmo nesse dia que Jesus morreu na cruz e não sei se foi para nos salvar. Mas acho que foi uma estupidez da Humanidade aquela coisa da cruz, da violência. E o pior é que olho em volta, nos jornais, na TV, e só vejo violência, por todos os lados. Crimes, pessoas morrendo, matando, filhos matando pais. Argh! Passaram-se tantos anos desde aquele fato e parece que pouco avançamos. Será mesmo que a Humanidade está evoluindo, papai?
Faz tempo que aboli notícias trágicas do meu repertório. Mas eu sei que não adianta ignorar o mal. Ele continua existindo! Será que isso nunca vai mudar? E como fico pensando nessas coisas na Sexta-Feira Santa, fico triste, sabe? No meu dia-a-dia faço de tudo para ignorar o mal, ignorar que tem gente que deseja o mal p/ os outros. Ignorar que as pessoas fazem coisas para prejudicar as outras. Ignorar que há crime. E pior: crime por causa de religião, imagine só! Duvido que exista gente como aquela Laura e aquele Renato Mendes da novela das oito. Mas de que adianta ignorar o mal? Ele não deixa de existir por minha recusa em aceitá-lo.
Fico chateada ao perceber que ele existe e que às vezes vem para cima de mim. Não sei me defender, entende, papai? Não sei brigar. Não quero brigar. Não quero discutir. Nem mesmo se eu acho que estou certa. Prefiro fugir. Buscar outro lugar.
Tenho alergia a pó, marimbondo, cachorro, gato, esmalte de unha, tintura de cabelo, corante, refrigerantes tipo coca, fungo, fungicida, e mais uma lista enorme, que não vou ficar repetindo aqui. Provavelmente eu não sou desse planeta. Gosto de pensar assim. Por que não me identifico com as coisas que estão acontecendo aqui.
Resolvi ser jornalista, com a ilusão de que poderia “ajudar” as pessoas. Mas vejo meus colegas jornalistas discutindo as notícias trágicas e eu acho que discutí-las reforça a energia em torno delas e fortalece esse tipo de ação. Eu queria que essas atitudes fossem ignoradas, pela imprensa, pela mídia, pela TV. De que adianta divulgar notícias trágicas? Cria-se um pânico ainda maior na população. As pessoas sentem-se inseguras e outros criminosos acham bonito aquilo e resolvem fazer também. Seqüestros, assaltos, traficantes envolvidos em tiroteios, matando inocentes. Políticos pensando em si mesmos, ao invés de pensar na população menos favorecida. Pessoas que só pensam em se dar bem. Ganhar muito dinheiro, ou então, só com a “casca”, com a aparência exterior, pondo silicone em tudo quanto é lugar. Se isso não é o fim do mundo, o que seria, então?
Por isso, me refugio nos filmes água-com-açúcar, não leio nem ouço notícias sobre tragédias e crimes, não vou ao cinema para ver filmes violentos e procuro criar em volta da minha casa um escudo fluídico protetor (acredito muito no poder da oração, da mente) e tento me resguardar nessa minha redoma de paz e de amor. Por isso, criei esse blog – acredito no amor entre as pessoas – amantes, namorados, pais e filhos, amigos reais e virtuais, acredito em todas essas relações baseadas no amor, no carinho, na compreensão, no afeto. “All you need is love”.
Claro que eu não vou conseguir mudar o mundo, desse jeito. Sou um grão de areia, solitário, perdido no meio desse mundo. Não tenho ilusões. Mas acredito que estou fazendo a minha parte. Acredito que a Páscoa significa mesmo a renovação e que é preciso que essa renovação se processe no íntimo de cada pessoa desse mundo aqui, que é onde eu vivo, meus filhos vivem, meus amigos e parentes (poucos) vivem.
Quero que o mundo seja feliz. Quero que não existam mais as notícias que estou tentando ignorar veementemente. Quero que haja uma mudança, de gênero, número e grau. Quero acordar um belo dia e ver só notícias boas no jornal. Quero que a Humanidade consiga entender aquela mensagem, tão velha, tão gasta, tão falada e tão pouco praticada – aquela do “Amai-vos uns aos outros”. Bastava isso para que acabassem as guerras, os crimes, o ódio entre os povos, as nações, as pessoas. Parece tão simples.
Então, por que é tão difícil, papai? Eu sei que o senhor também não pode me explicar, mas continuo sonhando com esse dia. E na Páscoa, meu sonho se renova, Espero que mais e mais pessoas, independente da religião (ou mesmo da não-religião), da cor da pele, da idade, da nacionalidade, consigam entender que a gente só deve fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem para nós. As ONGs gostam de usar o termo “círculo virtuoso”. É mais ou menos isso. Eu espero, do fundo do meu coração, que esse dia chegue. Que não demore muito, por favor.
Fico triste, às vezes, mas a minha esperança é muito mais forte. Dessa tristeza surge uma força que me impulsiona cada vez mais a viver de acordo com aquilo em que eu acredito. Um dia, esse mundo aqui será melhor. E aí, não vou mais ter alergia. Vou poder respirar e deixar o ar entrar nos meus pulmões fatigados. A renovação vai atingir cada um dos habitantes desse planeta e derreter o que tiver restado de maldade dentro do peito de cada um dos terráqueos. Eu só queria que fosse logo.
É isso. Desculpe o desabafo, papai. Mas às vezes, a barra pesa um pouco mais.
Pra terminar esse mais longo post da história do “Consulta Sentimental”, quero deixar aqui registrado o meu desejo de uma FELIZ PÁSCOA para você que está lendo esse texto gigante, agora. E especialmente para o meu pai, a Aparecida, a vovó Flora, a mamãe, o Gui, o Tom e a Biba. E a Alê, o André, o Dígito, a Morgana, a Adriana M., a Luciana K., a Estela, a Mônica, a Mônica do Casca de Noz, a Maura, a Luciana, a Cristiane, a Pâ, a Nana, o Alexandre, a Elis, a Márcia (Pat), a Stela, a Patty, a Ciça, a Rosana, o Mauro, a Ingrid, a Lúcia, a Catarina, a Delly, o Mauro, a Carol, a Maitê, a Yami. Esqueci de você? Puxe a minha orelha nos comentários, tá?

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