sexta-feira, novembro 19, 2004

Árvores
No meio da madrugada as motosserras enchiam o silêncio de barulho, muito barulho.
Saí no terracinho para tentar entender o que acontecia. O barulho, ensurdecedor. Homens andando de um lado para o outro, com aqueles coletes fosforescentes. No chão, interrompendo o movimento da rua, ela jazia, morta.
A paineira, linda paineira, morreu esta noite.
Vou por uma foto dela aqui depois.

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Estou de luto.
Por um triz não esmagou o carro do Tom, que estava estacionado uma vaga a frente do local onde ela caiu estrondosamente.
A rua ficou triste.
Foi a segunda árvore que morreu ali este ano.
Ela devia ser centenária.
A companheira dela, que morreu primeiro, era uma árvore quase rara, que eu nem sei o nome, que ficava no meu prédio. Para desviar dela, o projeto da arquiteta que inventou a super-mega-ultra-guarita do meu prédio precisou fazer um dente estranho na construção.
Linda, frondosa, ela enchia de verde o olhar de quem saía na janela do meu quarto ou no terraço da sala.
Mas ela morreu. E plantaram aquele tronquinho mirradinho no lugar. Vai demorar muito, mas muito tempo para que essas árvores fracotas cresçam o suficiente para encher de novo a rua.
Hoje de manhã, os passarinhos gritavam, desesperados. Haviam perdido as suas casas.
O fim de semana vai ser triste. O ano vai ser triste. Os próximos anos vão ser tristes. Mais do que nunca, preciso me mudar daquele endereço ridículo.
O que essa história sobre árvores está fazendo aqui neste blog, onde só devia haver histórias de amor? É porque vocês já imaginaram a ligação energética que devia haver entre as duas árvores que morreram quase que ao mesmo tempo?? Quantos anos elas estavam ali naquele lugar, juntas, testemunhas da história da rua, da construção do meu prédio, depois do prédio da frente, depois do prédio do lado (que roubou a minha vista da avenida Paulista)...
Na minha família havia um casal, a Dalva e o Frederico. Eles moravam em Santos e tinham um filho único, o Rafael. Era sobrinha do meu avô, acho. Ela morreu de câncer. Um ano depois, no mesmo dia e no mesmo mês, o marido morreu também. Para mim, essas são histórias de amor. Tristes, mas de amor.

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